Quem pode traduzir autores negros?

 


Não sei explicar porquê mas, ontem à noite, tive dificuldade em adormecer depois de ter lido algumas coisas no Facebook antes de me deitar. Estive uma hora a ler um livro na cama, mas li muito poucas páginas — não me conseguia concentrar. Levantei-me duas vezes para ir fumar. Mentalmente, estava já a escrever este texto, mas como não gosto de escrever no telemóvel, nem tive paciência de vir ao computador, fui remoendo as ideias, acentuando a insónia.

O que me provocou este desconforto foi uma série de posts sobre a polémica em torno da tradução holandesa de The Hill We Climb, o livro de poemas de Amanda Gorman, que leu o poema homónimo na inauguração de Joe Biden como presidente dos EUA. Para quem desconhece a polémica e, ainda assim, quer saber a minha opinião, resumo o que se passou: a editora holandesa que vai publicar o livro escolheu Marieke Lukas Rijneveld para o traduzir. Janice Deul, uma activista negra holandesa, insurgiu-se contra a escolha, por considerar que devia ser uma jovem autora negra, como Gorman, a traduzir. As críticas tiveram eco, muita gente se juntou ao protesto, e Rijneveld, que teria sido escolhida pela própria Gorman, acabou por desistir de fazer o trabalho, dizendo-se chocada com a revolta, mas compreendendo a situação.

Ontem, no Facebook, vi uma série de posts sobre o assunto (talvez fossem mais antigos, mas o algoritmo mostrou-mos todos ontem). Alguns comentavam-no partilhando um texto de António Cabrita sobre o assunto, outros comentavam-no sem anexos. O tom era o mesmo em todos: uma revolta com este exagero absurdo, alegações de fascismo, acusações de racismo a Janice Deul, e o chavão de que agora só os negros é que podem traduzir negros e qualquer dia também já não podemos ler autores negros. E isto deixou-me maldisposto ao ponto de me provocar insónias. Porquê? Não sei, eu sou só mais um homem branco a quem isto nada afecta, mas espero que escrever este texto me ajude a dormir melhor hoje.

O que está em causa, como disse Janice Deul, é mais um caso de uma oportunidade perdida. A editora holandesa perdeu a oportunidade de dar espaço a uma autora negra para traduzir um livro que aborda as questões da identidade e do racismo. Rijneveld disse que se tinha dedicado com alegria à tarefa, com a missão de manter a força, o tom e o estilo de Amanda Gorman, mas acrescentou: “No entanto, compreendo que estou numa posição que me permite pensar e sentir-me assim, quando outros não têm esse privilégio” (tradução minha).

E não percebo como é que isto pode gerar tanta revolta de pessoas brancas. Não está em causa a qualidade de Rijneveld enquanto tradutora e autora, mas sim tratar-se de uma oportunidade perdida. É inegável que há pessoas que têm menos oportunidades, seja pelo tom de pele, pela orientação sexual, pela identidade de género, etc. Não é positivo que se aproveitem estes casos, trabalhos que lidam directamente com estes temas, para dar oportunidade a quem os sente na pele? Quando há um evento dedicado ao papel das mulheres no mundo laboral, e os convidados são todos homens, é revoltante, mas que uma activista negra defenda que devia ser uma autora negra a traduzir os poemas de Gorman já é um exagero?

Em Portugal, tivemos há pouco tempo o caso da dobragem do filme Soul, da Pixar, o primeiro filme do estúdio a ter um negro como protagonista. Por cá, e noutros países, foram escolhidos actores brancos para dar voz às personagens negras, num outro caso de oportunidades perdidas. Se nem nestes papéis dão oportunidades, em quais é que vão dar?

Dizer que agora nós, os brancos, já não podemos traduzir negros ou que qualquer dia nem podemos ler negros, é de uma desonestidade que me deixa realmente triste. E ao mesmo tempo é ridículo: é como aqueles tipos de direita que escrevem nos jornais que a imprensa agora é só politicamente correcto e marxismo cultural e que são vítimas de censura. Estão a publicar textos na imprensa, a serem pagos para isso, e a queixarem-se de que não os deixam falar. Então agora os brancos já não podem traduzir negros?

Lembrei-me de quatro livros relativamente recentes em Portugal, de mulheres negras, e que abordam os temas do racismo: Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola (ed. Antígona), de Maya Angelou; A Liberdade é uma Luta Constante (ed. Antígona), de Angela Davis; Não Serei Eu Mulher? (ed. Orfeu Negro) e Teoria Feminista (ed. Orfeu Negro), ambos de bell hooks. Adivinham quantos foram traduzidos por brancos? Todos. Os dois da Antígona foram traduzidos por Tânia Ganho, Teoria Feminista foi traduzido por Helena Silveira e, o mais engraçado de todos, Não Serei Eu Mulher?: As mulheres negras e o feminismo foi traduzido por Nuno Quintas. Exacto, um homem branco.

Não coloco em causa a qualidade dos tradutores em questão, mas são também excelentes oportunidades perdidas. Eu defendo que nós, os brancos, podemos e devemos usar o nosso lugar de privilégio para falar destes temas, para chamar a atenção, para fazer eco de problemas que não nos afectam. Não podemos é fazê-lo do ponto de vista do oprimido quando não o somos. E podemos e devemos ter a humildade de reconhecer  — que foi o que fez, e bem, Rijneveld, chateando uma série de portugueses brancos — quando é que estamos a ocupar um lugar que poderia e deveria ser ocupado por alguém com menos privilégio. Isto dito depois de escrever estes parágrafos todos sobre o assunto tem a sua ironia, eu sei, e por isso aproveito a desculpa para me calar.