Apontamentos sobre Cesare Pavese e Bianca Garufi


Na folha de rosto de Fogo Grande, uma edição de bolso da Portugália Editora, sem data (na Porbase diz-se que é dos anos 1960), aparece a indicação autoral do livro: a imagem que acompanha este post. Cesare Pavese, em cima, numa fonte ligeiramente maior, e Bianca Garufi em baixo. Na capa, contudo, como na lombada, aparece apenas Cesare Pavese. Mas o livro começa com um prefácio de Bianca Garufi, onde explica que ela e Pavese escreveram o livro a meias, alternando capítulos. Ela escreveu os capítulos da perspectiva de Silvia e ele os capítulos da perspectiva de Giovanni (João, nesta tradução de Jaime Brasil). O livro foi publicado em Itália em 1959, nove anos após a morte de Pavese (e, a título de curiosidade, a edição italiana tinha os dois autores na capa, no mesmo tamanho de letra e lado a lado). Ultrapassado este choque com o passado, o livro em si é maravilhoso. São umas meras 150 páginas em letra gigante, ou seja, é uma pequena novela onde a contenção não está apenas nos recursos narrativos, mas na própria narração. É um daqueles livros que não trata o leitor como ignorante, que deixa por dizer aquilo que o leitor pode intuir e adivinhar. A história, tão simples e tão rica, é a de um jovem casal que visita a aldeia dela após a notícia da morte de uma criança, irmão dela. Seguem-se o choque entre Silvia, a rapariga que fugiu para a cidade, e a sua infância e família campesinas; o choque entre Giovanni e Silvia, que parece usá-lo para que o choque entre a família e a sua vida citadina seja menor; o choque entre Giovanni e o campo e a família de Silvia e o passado de Silvia. Tudo isto contado em poucas palavras, num pequeno milagre de perfeição: nada é desnecessário e, por muito que quiséssemos saber mais, o que lá está chega para criar uma obra-prima. Na verdade, diz-nos Garufi no prefácio, Fogo Grande era mesmo para ser um projecto maior, e indica alguns dos planos que tinham para a acção. Mas tal como está, entenderam (Garufi e Einaudi, o editor) que era uma novela perfeitamente viável. Ainda bem que o fizeram.

Apontamentos sobre Knut Hamsun


Depois de ter lido elogios um pouco por todo o lado, a expectativa para ler Hamsun era elevada. Talvez por isso, também, a desilusão foi maior. Fome, que comprei finalmente este ano na Feira do Livro, quando era livro do dia, desiludiu-me em toda a linha. Não há absolutamente nada que considere memorável neste livro. Nem a história (ou a ausência dela), nem o ambiente retratado, nem a personagem (porque só há uma, tudo o resto são figurantes), nem a escrita. Acredito que na época em que foi publicado originalmente (1890) possa ter sido marcante e inovador e que o seu valor advenha daí. Contudo, parece-me um livro que sobreviveu muito mal à passagem do tempo. As deambulações de um pobre jornalista miserável, que passa fome e vive na rua ou onde consegue, não me cativaram, sobretudo porque a narrativa é circular e infrutífera: tem muita fome, não consegue escrever, não tem onde cair morto; lá consegue vender um artigo a um jornal, consegue pagar alguma comida, um tecto sob o qual dormir e rapidamente fica sem nada de novo; ou então vê-se com dinheiro e desbarata-o de formas imbecis. A fé e uma inabalável vontade de ser moralmente correcto são características muito mal exploradas e que soam risíveis ao leitor de hoje. Pelo menos ao leitor de hoje que sou eu. Portanto, não sei se Hamsun terá outra oportunidade, porque este Fome foi uma péssima porta de entrada para a obra do Nobel norueguês.