O caderno perfeito

Creio não incorrer em grande falha se disser que toda a gente que gosta de escrever, ou que tem na escrita o seu ofício, gosta de cadernos. Eu não sou excepção. Não se trata apenas de gostar de cadernos indiscriminadamente, embora a ideia de caderno, por si, possa ser apelativa. Mas há, claro, cadernos maus, cadernos feios, cadernos de que não se gosta. Neste campo, como em todos, há gostos para tudo.

Há os fetichistas que usam sempre o mesmo modelo, como aqueles cadernos de argolas brancas e capa azul, ou os cadernos diários da primária, de capa amarela, ou aqueles de capa preta e lombada agrafada; isto para dar só exemplos de cadernos que acho particularmente feios. Também há gente, e não pouca, que brada o seu amor pelas esferográficas bic como o instrumento divino da escrita; para dar mais um exemplo de algo que odeio.

Há quem só escreva em cadernos de folhas lisas, quem prefira as pautadas, as quadriculadas e, embora nunca tenha conhecido ninguém assim, de certeza que há quem escreva em cadernos de música. As peculiaridades dos fetichistas são tão inesgotáveis quanto a variedade de cadernos que existem. Por minha parte, não me creio um fetichista; embora haja alguns modelos mais da minha estima, tenho variedade suficiente para escapar ao rótulo.


Na foto acima estão alguns dos meus cadernos. Faltam vários de modelos iguais a algum destes e outros de modelos diferentes que não estavam à mão para a fotografia.

Uma legenda rápida, a começar pela fila de cima (da esquerda para a direita): caderno preto de argolas da Muji, para apontamentos aleatórios; caderno cozido da Moleskine cinzento (vendidos em packs de três), para apontamentos relativos ao romance que comecei a escrever (a frase escrita na capa é de uma canção do Father John Misty); caderno igual ao anterior, mas em bege, onde escrevi parte do romance, quando achei que devia escrever à mão; caderno agrafado, que a minha namorada me ofereceu, comprado na Feira Morta a uma rapariga que fazia cadernos personalizados, ainda em branco; caderno Moleskine tamanho bolso, de capa mole, para apontamentos aleatórios (já está terminado).

Fila de baixo: caderno comprado num hipermercado (creio) e que tem demasiadas páginas para ser funcional (a lombada não permite que se abra bem), uso-o para fazer desenhos que depois passo para o computador, como o cabeçalho deste blogue; Moleskine igual ao preto, mas em cinzento, que uso para apontar as ideias para a escrita (ideias para contos, cenas, etc.); caderno com folhas feitas de rocha e à prova de água que a minha namorada me trouxe de Barcelona, ainda em branco; mais um Moleskine, desta vez de capa dura e numa edição especial Peanuts, ainda em branco; caderno da Muji, onde escrevo poemas; caderno do hotel Alma, em Barcelona, que roubei aquando da minha estadia recente na cidade, para apontamentos no trabalho (em reuniões e afins) e outros.

Como terão reparado, muitos dos meus cadernos têm um propósito específico. Tirando o Moleskine preto, que está terminado, e o de argolas preto, todos eles têm uma utilização específica (os dois ainda não começados terão, provavelmente, também a sua especificidade). Esta minha necessidade de atribuir uma categoria a cada caderno é algo de que já me arrependi várias vezes, mas que continuo a praticar. Arrependi-me porque muitos destes intentos não passam da meia-dúzia de páginas. Houve tentativas de ter um diário, houve cadernos destinados a apontamentos de projectos que nunca arrancaram ou que morreram logo após o nascimento. As pouquíssimas páginas que mancham esses cadernos tornam-nos, para mim, praticamente inutilizáveis. Pelo menos até ao momento em que decido rasgar as páginas escritas e fazer desses cadernos falhados, cadernos em branco.

Não sei de onde vem esta necessidade de atribuir propósitos aos cadernos. Sendo eu um tipo bastante desarrumado e desorganizado, esta vontade de ter lugar definido para as coisas, agora que penso nisso, existe noutros campos. E, invariavelmente, acaba por ser um intento fracassado. Se pensarmos bem, isto nem sequer é prático. A não ser que andasse sempre com vários cadernos atrás, só podia correr mal. Depois entro em dilemas parvos como, por exemplo, escrever uma ideia para um conto num caderno geral ou num pedaço de papel que tinha à mão. Depois o que é que lhe faço? Anoto-o no computador, onde também tenho um ficheiro para isso, ou passo para o caderno das ideias para a escrita? Porque também há este pormenor: os cadernos parecem-me servir para apontamentos genuínos, do momento, e não para coisas passadas a limpo de outros papéis.

Para mim, nenhum destes cadernos funciona como “arquivador”. Não tenho de ter todas as ideias no caderno das ideias, nem todos os poemas no caderno dos poemas. Mas se nunca os tiver comigo, nunca receberão apontamentos. Posto isto, o que tenho feito é andar sempre com o Moleskine cinzento pequeno, o das ideias de escrita, e o caderno do hotel Alma. O Moleskine é usado raramente, porque não tenho assim tantas ideias de escrita. Tenho apontado algumas cenas, pormenores, que não servem ainda como ideia mas que podem originar uma, ou ser inseridas numa história. Isto é também um pouco de jogo de imitação: há imensos escritores a referirem os seus cadernos de apontamentos como ferramenta indispensável. Só que eu não tenho aquele olhar de quem perscruta o mundo à procura de histórias. Acontece-me frequentemente descobrir, um dia ou dois depois, que algo que ouvi ou que presenciei ou em que estive envolvido pode ser matéria de escrita. Raramente tenho essa percepção no momento.

Não obstante, gosto mesmo de cadernos. Para trazer sempre comigo, os meus preferidos são os de tamanho bolso e, nessa categoria, os Moleskine de capa mole (folhas brancas ou pautadas). Para escrita mais prolongada, são os Moleskine de tamanho acima, cosidos, vendidos em packs de três, pautados. Os restantes são cadernos que vou comprando para experimentar, ou porque são giros ou porque os acabamentos me agradam ou porque o papel me parece agradável. Todas as desculpas servem.

Nos meus delírios de megalomania, quando penso como seria se me pudesse dedicar inteiramente à escrita (se ganhasse o euromilhões, em que não jogo, ou assim), imagino o meu escritório como uma espécie de estação de escrita, linha de montagem de contos, em que o único operador sou eu. Numa secretária imensa, em forma de L ou até de U, haveria três postos principais. No primeiro, estavam os cadernos, onde escrevia à mão a primeira versão do conto. Concluída essa versão, passava para o segundo posto, o da máquina de escrever, onde transcrevia esse conto. Isto porque, numa transcrição deste género, faz-se (pelo menos eu faço) edição simultânea; isto é, enquanto passo o conto a limpo, vou fazendo alterações que me parecem melhorá-lo. Depois de o ter todo em letra de máquina, faz-se uma nova revisão de caneta vermelha na mão. Finalmente, passaria ao terceiro posto, em que passava esta versão no computador, introduzindo as alterações já feitas com a caneta vermelha e outras que surgissem no momento. Por fim, imprimia o resultado final e continuava a editar até ficar satisfeito.

Infelizmente, não me posso dedicar à escrita a cem por cento e por isso este método parece-me incomportável. Levaria meses a terminar um simples conto. Não é que eu veja mal nisso (aliás, a minha alternativa a pôr este método em prática tem sido simplesmente não escrever), mas parece-me que pensar nas condições ideais em vez de usar as condições disponíveis é uma excelente desculpa para não fazer nada. Como não queria demorar dez anos a terminar o primeiro livro de contos, talvez fosse inteligente deixar-me destes devaneios. Infelizmente, por mais bonitos que sejam, não há cadernos que escrevam por mim.

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