O tédio da fuga

Mais do que um filme entediante, Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni, é um filme sobre o tédio. Num primeiro momento, há o cansaço, que conduz à acção que desencadeia o enredo, mas rapidamente a personagem de Jack Nicholson regressa ao cansaço, ao tédio letárgico capaz apenas de um movimento: fugir.

Nicholson começa por ser David Locke, um repórter britânico em África que tenta em vão encontrar um grupo de rebeldes armados. Quando descobre o inglês, que conhecera na viagem, morto no quarto de hotel, David Locke decide trocar de identidade com este, e assim passa a ser Robertson. O que Locke não sabe nesse momento, mas virá a descobrir depois, é que Robertson era um traficante de armas, fornecedor dos tais rebeldes.

Transformar este argumento, perfeitamente executável em modo blockbuster de pipoca e coca-cola, num filme sobre o tédio é o golpe de génio que faz de Profissão: Repórter uma obra-prima. Toda a primeira parte do filme, em que acompanhamos Locke perdido pelo deserto, tentando recrutar ajudantes para encontrar os rebeldes, mas vendo os seus intentos saírem sempre gorados, conflui na cena em que o jipe fica atascado na areia, levando Locke ao desespero. Esta é a cena onde o cansaço se abate todo sobre a personagem, que o descarrega em golpes de pá contra o veículo. É deste cansaço que nascerá o impulso de trocar de identidade com Robertson.

Com os documentos e a agenda do morto, tendo trocado as fotos dos passaportes, Locke, agora Robertson, reporta a sua própria morte aos funcionários do hotel, que não se apercebem da troca de identidades, fazendo o plano avançar. Livre do seu tédio de jornalista que procura em vão, o ex-Locke abraça o tédio de uma nova identidade, jogando pelas regras: decide seguir as pistas da agenda do “homem de negócios”.

É então que é abordado, em Munique, por dois homens que lhe pedem os papéis que este tinha ficado de lhes fornecer. No desenrolar desse encontro, apercebe-se de que o homem cuja identidade roubou é um traficante de armas. Esta descoberta, que deixaria em alvoroço qualquer pessoa, é recebida por Locke-agora-Robertson com apatia: o seu tédio não é abalado e continua a seguir as pistas da agenda do morto, viajando para onde a agenda o manda, sem vontade própria, mesmo que nestes locais não apareça ninguém.

A suposta viúva de Locke, quando recebe a notícia, tenta descobrir o paradeiro de Robertson, o último homem a falar com o seu marido. E quando recebe os pertences do morto, apercebe-se de que a foto no passaporte não pertence ao seu marido e a sua busca intensifica-se, com a ajuda do produtor de televisão para quem Locke estava a filmar e da polícia.

Robertson, isto é: Locke fazendo de Robertson, vislumbra o produtor em Barcelona e começa a fugir. A partir daqui, a sua aventura com uma nova identidade resume-se à fuga: uma fuga entediante e circular, como a sua busca, sempre vã, pelos rebeldes africanos; uma fuga sempre vã do seu passado.

Há um único momento em que a personagem de Nicholson parece realmente desfrutar de uma certa liberdade, quando se debruça de um teleférico sobre o mar e abre os braços, como se voasse sobre as águas, num plano belíssimo. Fora isto, nem a paixão que se desenrola com uma jovem estudante de arquitectura, interpretada por Maria Schneider, parece aliviar o imenso fardo do tédio que Locke carrega.

Este momento de liberdade é depois replicado por Maria Schneider (cuja personagem nunca revela o nome), num momento em que viajam juntos num descapotável. Quando a estudante pergunta a Robertson (porque para ela, ele nunca foi Locke) de que é que ele foge, este limita-se a responder: “Vira as costas para a frente”. Acedendo, a estudante volta-se para trás, ajoelhada no banco traseiro, de braços abertos, vendo a estrada afastar-se.

Esta resposta de Locke é, na verdade, mais profunda do que a verdade da personagem. Se é certo que é do que está para trás que ele foge – não apenas do seu passado, mas também das pessoas do seu passado que o procuram – a sua liberdade é condicionada não só por esse passado, mas também pela identidade que assumiu e cujos planos não consegue deixar de seguir. Em vez de abraçar uma nova vida repleta de oportunidades, Locke transforma-se em Robertson e só consegue ir para onde Robertson devia ir. Acompanhado pela companheira perfeita, cujo tédio parece capaz de ombrear com o seu, Locke não só não consegue fugir de si próprio, como não consegue fugir de Robertson. É uma fuga, como a sua busca pelos rebeldes, condenada ao fracasso.

Profissão: Repóter é uma espécie de policial quase sem acção, que envolve tráfico de armas mas em que nenhuma arma é disparada. O máximo que vemos é uma perseguição policial, à qual a personagem de Jack Nicholson consegue fugir. Tudo o resto é tédio, duas personagens perdidas, sem rumo definido, fugindo só pela fuga, como quem procura nesse gesto um sentido para a vida. E não o encontram.

2 comentários

  1. E tu és merda com duas pernas, paspalho armado em intelectual. Nunca passarás da mediocridade, lixo.

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    1. Bem, se tu o dizes, Arnold, é porque é verdade. Este teu comentário faz-me repensar toda a minha postura, desistir de tudo aquilo que tinha pensado fazer ainda no futuro. Obrigado por iluminares a minha existência. Não me resta outra solução senão, humildemente, apagar este blogue e todos os vestígios da minha mediocridade paspalha espalhada pela Internet.

      Felizmente, nem tudo é mau: tenho duas pernas! Era bem mais chato ser merda com uma perna. Já viste?

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