David Simon: um dos maiores escritores do século XXI

Quando pensamos em grandes escritores, o conceito parece indissociável de um outro, o de livro, porque é nos livros que temos contacto directo com a escrita. Desde que surgiu o cinema, há pouco mais de um século, e depois a televisão, vimo-nos confrontados com uma outra realidade, de homens e mulheres cuja escrita nos chega em forma de imagens.

No teatro o choque nunca foi tão marcante porque a maioria das peças encenadas existiam em formato texto, podiam ser lidas prévia ou posteriormente. Embora também já haja edições de guiões de cinema, ainda que muito residuais, a verdade é que a escrita para cinema e televisão é uma escrita sem leitores: estes são substituídos pelos espectadores.


É, por isso, mais do que natural que haja, entre as pessoas que escrevem para esse fim, grandes escritores, alguns dos quais sem qualquer obra publicada (pelo menos se entendermos a publicação no seu modelo clássico). David Simon é um desses grandes escritores escondidos. No seu caso, até tem dois livros de não-ficção publicados, mas é pelas imagens das séries de televisão que criou que o seu génio atinge as pessoas.



The Wire é uma daquelas séries tão marcantes que os fãs não esquecerão o nome do seu criador. Além desta, por muitos considerada a melhor série de televisão de sempre, Simon criou a série Treme e as mini-séries The Corner (baseada num dos seus livros), Generation Kill e a mais recente Show Me a Hero, exibida este ano na HBO.

Para mim, que só tinha visto ainda The Wire, Show Me a Hero foi o elevar do génio de David Simon. Não é que esta mini-série supere em qualidade a insuperável The Wire (supera-a, apenas, na fotografia e realização, o que é natural, dada a distância temporal), mas o facto de David Simon ter conseguido, em apenas 6 episódios, dar tanto de tantas personagens, prova o quão brilhante é este escritor.

Embora se foque essencialmente numa personagem, Nick Wasicsko, que se torna mayor de Yonkers, Nova Iorque, logo no primeiro episódio, a série vai mostrando desde o início pedaços da vida de outras personagens. Com um enredo que gira em torno da construção de habitações sociais em Yonkers, e da batalha política e judicial que opõe os que estão a favor e os que estão contra, Show Me a Hero divide-se entre a acção geral (política e judicial) e a acção particular (as pessoas que poderão vir a beneficiar dessas habitações e os habitantes de Yonkers que se opõem à sua construção).

Esta dualidade de perspectivas é conduzida de forma brilhante, não apenas pela exímia construção da narrativa, mas também por interpretações marcantes de Oscar Isaac (que faz de Wasicsko e que eu só tinha visto no simpático Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen), Catherine Keenen (no papel de uma habitante de Yonkers que se manifesta contra a construção das casas) ou Bob Balaban (o juiz que decreta o fim da segregação, impondo a construção das habitações em vários locais de Yonkers).

Show Me a Hero tem alguns defeitos, contudo. Em certos momentos, a história avança demasiado depressa (particularmente no primeiro episódio) e os truques que são usados para o percebermos são pouco subtis, ainda que funcionem: uma personagem que engravida e, quando voltamos a ela, já teve o filho, e coisas do género. As personagens secundárias são tão boas que temos vontade de as conhecer melhor e em seis episódios não há tempo para tudo. Mas o que torna a série perfeita é a forma como sabe jogar com as suas limitações e como nessas limitações consegue encaixar matéria suficiente para se tornar não apenas uma mini-série brilhante, mas uma mini-série melhor do que a esmagadora maioria das séries que por aí andam.

Depois disto, é difícil não ter vontade de ver e ler tudo o que tenha o dedo genial de David Simon, um dos maiores escritores do século XXI, mesmo que o seu nome não apareça nos escaparates das livrarias. Não é difícil fazer diferente do que fazem os outros, difícil é fazer melhor: David Simon consegue-o.

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