Como segurar numa caneta

Recentemente, descobri que uma boa forma de terapia é escrever à mão. Descobri-o a escrever uma carta e confirmei-o a escrever num caderno, para mim, sem qualquer intuito de mostrar aquilo a alguém. Talvez seja a junção de uma actividade intelectual com uma física, porque escrever à mão tem um lado físico que não é tão marcado quando escrevemos num computador.

Sim, num computador as mãos também se mexem (até se mexem as duas, ao contrário do que acontece na escrita manual), mas o movimento é mais desligado. Nós carregamos em botões que fazem aparecer caracteres, que se transformam em palavras. Cada bater de tecla dá um carácter. Enquanto na escrita manual, cada letra e cada símbolo exige um desenho, um percurso da caneta pelo papel.

Isto é tudo muito bonito, muito esoterismo barato — embora eu acredite realmente no que estou a dizer e acredite que é este lado mais físico e ligado ao desenho que torna a escrita à mão, pelo menos para mim, bastante relaxante —, mas aquilo que vos queria dizer era que não sei pegar numa caneta. A sério. É assim que eu pego numa caneta:


E se estiverem a pensar “Mas não é assim que se pega numa caneta?” então talvez vocês tenham o mesmo problema que eu. É assim que uma pessoa normal pega numa caneta (a sério: eu já googlei “como pegar numa caneta correctamente”):



Estão a ver a diferença? A pessoa normal segura a caneta com o polegar e o indicador, usando o dedo médio como suporte ou base. Eu, pessoa anormal, seguro a caneta com o polegar e o dedo médio, usando o anelar como suporte e o indicador como cinto de segurança.

De um ponto de vista teórico, parece-me que a minha anormalidade faz muito sentido, porque usando quatro, em vez de três, dedos, consigo ter uma maior segurança, que me permite uma maior precisão. Ou seja, eu estou certo e o resto do mundo está errado.

Tanto quanto sei, sempre segurei assim nas canetas e lápis. Não tenho qualquer memória de ser repreendido por isto, na escola primária, por exemplo, onde se ensinam estas coisas práticas. Para mim, isto sempre foi normal, pelo menos até ao momento em que tomei consciência de que alguém segurava nas canetas de forma diferente. Não sei quando aconteceu, mas tenho quase a certeza que tentei gozar com a pessoa, para rapidamente me aperceber “that the joke was on me”. (Foi uma revelação tão chocante como quando percebi que cada pessoa só podia ter quatro avós. Ia jurar que tive colegas de primária com muito mais avós, o que me fez crer durante anos que o número de avós era tão variável quanto o número de irmãos ou primos.)

Há, no entanto, um problema, que não tenho a certeza se deriva do meu modo deficiente de segurar na caneta, mas desconfio que sim: coloco demasiada pressão na mão, agarro a caneta com demasiada força, o que faz com que o acto de escrever se torne literalmente doloroso ao fim de largos minutos. Fico mesmo com uma cova no dedo anelar, onde a caneta se apoia, de a pressionar com tanta força contra esta base. Sou uma pessoa esquisita.

Não é que eu não consiga escrever se segurar na caneta como as pessoas normais — consigo —, mas sinto que me falta ali qualquer coisa, sinto que o objecto não está seguro na minha mão, que pode escorregar ou sair disparado a qualquer momento. E por não ter a mesma precisão do meu manuseio especial, essa forma normal de segurar a caneta faz-me desenhar as letras quase como se tremesse das mãos. As linhas saem bastante irregulares.

Seria um bocado ridículo decidir “aprender” a segurar numa caneta aos trinta anos (sim, eu sei que ainda não tenho trinta, mas para efeitos dramáticos soa melhor), mas já pensei seriamente nisso, porque acredito que talvez a técnica normal de o fazer alivie um pouco a pressão que exerço na mão ao escrever. Porque é um bocado aborrecido descobrir esta excelente forma de terapia e não a conseguir pôr em prática a um nível ideal porque me cansa ou magoa. Ficaria em paz, contudo, se no meio de tantos estudos idiotas que aparecem por essa Internet fora aparecesse um a provar que as pessoas que seguram na caneta como eu são mais inteligentes, enriquecem mais e ganham mais prémios Nobel da Literatura.

Só para concluir este post fascinante, permitam-me acrescentar que o caderno e a caneta que aparecem nas fotos são os meus preferidos. O caderno é um daqueles Moleskines sem lombada, que se vendem em packs de três, de que gosto muito porque 1) permite que o dobre e 2) a altura das linhas é mais pequena do que nos cadernos normais, o que faz com que tenha de fazer uma letra mais pequena, que origina uma mancha de texto mais compacta, que potencia o tal efeito terapêutico. A caneta é da Muji e gosto delas porque não falham e porque são leves.

A minha caneta preferida, na verdade, é a minha Parker (daquelas mais baratinhas) metalizada, mas como é mais pesada, torna-se desconfortável mais depressa. Idealmente, até escreveria com lápis, porque são ainda mais leves, mas a chatice de um gajo ter de estar sempre a afiar aborrece-me. Depois, quando está afiado o traço é fino e à medida que se vai gastando vai ficando mais grosso e a mancha não fica uniforme. E escusam de dizer “Nunca ouviste falar em lapiseiras?” porque acontece a mesma merda. Além disso, as lapiseiras pesam tanto como a caneta da Muji, por isso calem-se.

10 comentários

  1. Olá Gonçalo Mira ,também escrevo da mesma forma que você ,nossa me vi ali na hora da dor nos dedos em alguns minutos de escrita.Por pesquisas na internet achei esse ótimo texto ,gostaria assim como citou ali em cima que estivesse mais sobre o nosso jeito diferente de escrever e ficaria em paz também kk

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  2. Me identifiquei também, não sei como aprendi a escrever assim e nem o por que, mas não consigo escrever "normalmente".

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  3. Eu também tinha problemas com a escrita, meu pai e minha irmã viviam reclamando da coitada. Vi alguns vídeos de cursos de caligrafia, aprendi a segurar a caneta da maneira correta e não aperto mais a caneta ou lápis, escrevo sem problemas. Agora minha letra é a mais bonita daqui de casa, me identifiquei muito com esse post. Realmente, dá impressão de que a caneta ou lápis vai escapar da mão quando não se segura com a mesma pressão de costume, mas com o tempo você acostuma. Um abraço! :*

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  4. Olá, nossa!Minha história é muito parecida com a sua, também escrevo desta maneira e sinto um tanto estranho quando em mesa redonda fazendo anotações ou preenchendo fichas em público^^

    Sinto a mesma dor após passados alguns minutos de escrita vigorosa e decidi pesquisar na internet.Acredito que embora haja maior precisão seja menos ergonômico causando esta dor.

    Mas aos 30 anos dá para aprender uma maneira mais confortável sim!é o que farei!Abçs

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  5. Adorei o seu artigo, também escrevo assim e depois de alguns minutos escrevendo sinto dor no dedo chegando a causar bolhas, e percebi no meu trabalho que todos escrevem diferente de mim, quer dizer eles escrevem corretamente, estou aprendendo a segurar uma caneta corretamente , porem estou com muita dificuldade.
    Vou continuar treinando ate conseguir!

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  6. Escrevo da mesma forma que você, apoiando no anelar! Acho muito confortável, apesar do calo que fica no local. Da forma "correta", a mão dói e perco o controle da caneta.
    Não vou tentar mudar não, vai que é minha mutação X-men...

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  7. Fiquei um tanto aliviado em ler esse artigo, também tenho sérios problemas para escrever, sou obrigado pegar a caneta de um forma totalmente desconfortável, não consigo escrever uma folha de caderno sem sentir muita dor de tanto que aperto e além de escrever muito devagar, pois não sinto firmeza, já tentei mudar porem não consigo escrever de outra maneira é uma situação bem complicada não sei mais o que fazer!!

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  8. Kkkkk hoje passo uma situação Mei complicado.Pois eu ,escrevo de várias formas😑


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  9. Nossa que alívio em ler este post. Meu caro me identifico super!!!
    Só descobri que segurava a caneta de forma diferente quando um colega de trabalhou recentemente me questionou sobre a forma que eu segurava a caneta... Fiquei um pouco indagada, fui procurar então no meu amigo "google" a forma "correta", e veja o que encontrei, esta matéria"!!!
    hahahaha... Adorei!!!

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  10. Que bom que não é só comigo. Minha caligrafia nunca foi muito boa e depois percebi que não segurava a caneta como a maioria. Queria achar informações de como melhorar a caligrafia e encontrei esse texto seu. Mas me dei conta que parece que eu nunca vou conseguir escrever do jeito "normal", talvez por meus dedos e mãos serem bastante compridas e eu já estar muito acostumado a escrever assim aos 19 anos.
    Gostei muito do texto, você escreve bem.

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