Os poemas de Jeff Mangum

Durante o Festival Silêncio deste ano, calhou eu estar à conversa com o Vasco Macedo, que organiza as Noites de Poesia Clandestina, e calhou a conversa ser sobre música. Estávamos a falar sobre o Primavera Sound e o Vasco disse que tinha ido no ano passado por causa de uma banda, “Não sei se gostas, os Neutral Milk Hotel.” Eu ri-me e disse só que era a melhor banda de sempre e estivemos um bocado à conversa sobre eles. Nessa noite, eu ia estrear-me como DJ numa festa de aniversário na Barraca e ficou prometido que passaria Neutral Milk Hotel: sim, a minha ideia de ser DJ é um bocado deslocada da realidade, motivo pelo qual acredito que a minha estreia foi, também, a minha despedida dessa nobre actividade.

Efectivamente, passei Neutral Milk Hotel, a “Gardenhead / Leave me alone”, que me parecia a mais adequada a uma festa, mas nem assim escapei aos olhares de desilusão dos presentes, sobretudo do anfitrião, que me olhava com a tristeza de quem percebe que cometeu um erro ao convidar-me para animar uma festa. Pior, o Vasco já se tinha ido embora, deixando-me perdido em busca de um olhar de aprovação. Não encontrei nenhum. Nem sequer um olhar de não-és-grande-coisa-mas-para-primeira-vez-já-vi-pior. Há coisas mais desagradáveis na vida, ainda assim, e posso sempre desculpar-me com o facto de ter sabido que ia ser DJ nesse mesmo dia e, por isso, não ter tido tempo de preparar uma setlist mais ponderada. Tentei resolver passando Smiths atrás de Smiths, mas aquilo era gente que não se sabia divertir.

Uns dias depois, o Vasco veio convidar-me para participar na próxima Noite de Poesia Clandestina, que seria dedicada à música, onde eu iria ler letras dos Neutral Milk Hotel. Aceitei logo e propus que em vez de as ler no original, lesse traduções minhas, ideia que foi prontamente aceite. Traduzir as letras do Jeff Mangum, o génio por detrás dos Neutral Milk Hotel, era uma ideia antiga, que já tinha iniciado mas que nunca tinha concluído. Tudo começou quando comecei a traduzir mentalmente alguns versos e o resultado me pareceu funcionar muito bem, como verdadeiros poemas, independentes da música, maravilhosos por si só.

Nos dias seguintes ao convite, dediquei-me então a levar avante a ideia antiga que nunca esquecera. Já sabia que não teria tempo para ler mais do que quatro ou cinco poemas na sessão, mas decidi que traduziria todas as letras dos dois discos da banda: On Avery Island (1996) e In the Aeroplane Over the Sea (1998); depois de tudo traduzido, logo faria uma selecção daqueles que me parecessem resultar melhor lidos em voz alta.

Decidi também que ia fazer um livrinho com as traduções, uma coisa caseira, paginado, desenhado e cosido à mão por mim. Fiz dois exemplares apenas: um para oferecer a uma pessoa especial que ia assistir à leitura e o outro, pensei eu, para tentar vender ou leiloar por lá, só para me pagar as viagens de comboio (ser pobre é fodido). Acabei por oferecer o segundo a um rapaz italiano que lá apareceu sozinho e que meteu conversa connosco.



O título que dei ao livro é um verso da “Gardenhead / Leave me alone” e a ilustração na capa é do próprio Jeff Mangum.

Sobre a leitura, digo apenas que nunca tinha suado tanto num palco (e embora estar em palcos não seja algo que faça regularmente, já o fiz algumas vezes, e há sempre suor envolvido, embora nunca tanto como desta vez), mas apesar desse desconforto físico, tenho a sorte de a voz não me tremer com os nervos pelo que quem conseguiu abstrair-se do suor, que se acumulava numa poça aos meus pés, é capaz de ter apreciado a leitura. Houve quem me dissesse que tinha sido muito bom e não foram apenas pessoas condicionadas pelo facto de terem recebido um dos dois únicos exemplares do livro.

Para quem não teve o privilégio de assistir ao espectáculo, deixo-vos com três poemas de Jeff Mangum, traduzidos por mim, que não li naquela noite:

ALGUÉM AGUARDA

Alguém aguarda para te sugar todos os halos
enquanto o teu rosto sopra através das minhas janelas
disparando peças a voar à volta do quarto.

E eu amo-te e quero
abater todos os super-heróis dos teus céus

vê-los sangrar do teu tecto
enquanto a sua raiva vazia lhes escorre dos olhos.


UM BEBÉ PARA PREE

Fervilhante Pree, toda sorridente e inchada
faz bebés para respirar
com os seus corações abertos espalhados pelas mantas
tão macios como beterrabas numa qualquer gaveta de uma cómoda.

E com abelhas no fôlego e o resto dela retinindo
eles vão picar-lhe o peito com uma força maciça e pulsante
até que ela fique maravilhosamente humedecida
até que esteja ensopada no interior das suas roupas.

E não há lamentações a lamentar
se um rebolar pelo chão, numa tarde tão sã e macia,
fá-la engolir todo o suor
com cada golfada de ar que tosse.
E quando o dia chegar para despejar todos os seus bebés
a toda a volta do chão da casa-de-banho
ela vai nadar em todos eles para todo o sempre.


TRÊS PÊSSEGOS

(Não existe sonho)

Por isso acorda, passa os lábios pelos dedos até encontrares
um aroma teu que possas exibir ao alto
para te lembrares de que não morreste
num dia que foi tão miseravelmente completo e feliz por estares viva.

E pareces tão mal tratada e é lindo
e reflecte-se de ti enquanto reluzes.
Estás na casa-de-banho a fazer desenhos festivos no teu corpo
esperando que ninguém te encontre, mas eles encontraram-te
e levaram-te e de alguma forma tu sobreviveste.

(Não existe sonho)

Por isso acorda, e se as férias não te esvaziarem os olhos
então encosta-te com força ao que quer que seja
que aches belo e vibrante de vida
porque eu estou tão feliz, estou tão feliz, estou tão feliz
por tu não teres morrido.

2 comentários

  1. Admiro-te a coragem e a entrega. Detesto traduzir, apesar de reconhecer a importância da tradução para levar as obras a um público mais vasto. Por vezes, tento traduzir um poema meu em Alemão para o poder partilhar com o meu marido e garanto-te, que o resultado é: poema assassinado.

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    1. Eu gosto de traduzir, mas é um exercício dificílimo. Parte da piada também está aí.

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