Jon Stewart: o mestre retira-se

A televisão foi um objecto que muito cedo deixou de merecer grande atenção da minha parte. Tive uma televisão no quarto, em casa dos meus pais, quase desde sempre, até que há uns anos deixei de ter porque, simplesmente, nunca a ligava. Era um objecto morto que ali estava, sem utilidade, que não acrescentava nada em termos estéticos, apenas ocupava espaço desnecessariamente. Mesmo a febre das séries que explodiu por cá com a difusão da televisão por cabo, passou-me ao lado. Vi algumas, é verdade, mas muito poucas, o que se torna evidente quando falo com amigos ou conhecidos. E até nas que tentei ver, foram pouquíssimas as que consegui levar até ao fim.

Não me lembro como é que nasceu a minha admiração pelo Jon Stewart e pelo seu Daily Show. Talvez tenha sido um misto de episódios apanhados por acaso em casa de algum amigo que tem o hábito de ter a televisão ligada e vídeos partilhados pela Internet. A verdade é que o Jon Stewart caiu-me no goto: como li ontem, numa citação de alguém, o Jon Stewart era o tipo que nos fazia rir com coisas que nos deviam fazer chorar. Digo mais, não aconteceu uma, nem duas, mas várias vezes, o Jon Stewart emocionar-me com os seus monólogos sobre o racismo, a violência policial e outros temas que mexem comigo. Era uma sensação muito bizarra estar a gargalhar em voz alta e sentir lágrimas formarem-se-me nos olhos. Não eram lágrimas de tanto rir, eram lágrimas de emoção, por ver alguém dizer a coisa certa, muitas vezes a coisa óbvia, de forma tão perfeita e acutilante.

Nunca fui, apesar desta admiração profunda, um espectador fiel do Daily Show. Tive uma fase, recente, em que ia vendo os programas no site do canal, Comedy Central, utilizando uma VPN (que mascarava o meu IP de forma a parecer que eu estava nos Estados Unidos) porque os vídeos só são acessíveis a internautas americanos. Só que esquecia-me muitas vezes e quando lá voltava já tinha cinco ou seis em atraso e acabei por deixar andar. Simplesmente não tenho paciência para a fidelidade que a televisão exige das pessoas.

O que fazia muitas vezes era abrir o YouTube e pesquisar Jon Stewart e ficar por ali uma hora ou duas a saltar de vídeo em vídeo, muitos deles com má qualidade, só para ouvir as tiradas de Stewart sobre os assuntos que mais me mexem com os sentimentos. É difícil esquecer o rosto de Jon Stewart quando faz uma piada sobre um polícia branco que matou um adolescente negro ou algo do género: a forma como o sorriso “vaidoso” de quem sabe que fez uma boa piada se mistura com o semblante sério de quem sente verdadeira raiva e impotência não apenas perante aquelas injustiças, mas perante o tratamento absurdo que muitos programas noticiosos dão a esses temas — criticar telejornais e comentadores de notícias era uma das coisas em que Jon Stewart era melhor.



Ontem foi o último Daily Show com Jon Stewart e, apesar de nunca ter visto o programa tão assiduamente como a minha admiração pelo apresentador parecia exigir, sinto que acabei de perder algo que estimava como valioso. Agora segue-se Trevor Noah como host do Daily Show e estou curioso para ver o que vai mudar e como é que Trevor vai gerir ou apagar o legado de dezasseis anos do brilhantismo de Stewart. O que mais me consola, ainda assim, é ter John Oliver a fazer o Last Week Tonight na HBO.

Oliver foi um dos colaboradores do Daily Show e chegou a ser apresentador principal durante umas férias de Stewart. O seu programa, embora em moldes diferentes (desde logo por ser semanal, mas também por não ter convidados), herda o cunho profundamente político e atento às injustiças que pululam pelo mundo (ainda que se foque quase sempre em questões internas dos Estados Unidos) e serve-me de substituto perfeito. Aliás, o programa de John Oliver vai mais ao encontro dos meus interesses do que o Daily Show: o facto de ser semanal liberta-o da pressão da “actualidade” e permite-lhe abordar e aprofundar assuntos de que mais ninguém fala. E quanto ao estilo, acho-o muito semelhante ao de Stewart, ainda que Oliver faça mais piadas de comparação absurda. O facto de ser um britânico nos Estados Unidos dá-lhe um toque especial, uma forma diferente de olhar para as coisas. E o riso mal disfarçado de achar piada às suas piadas é o remate perfeito para a figura de totó de John Oliver.

Stephen Colbert, no último Daily Show com Jon Stewart, disse que todos eles, os que tinham trabalhado no programa com Stewart, tinham ganhado imenso enquanto profissionais, apenas por poderem ver como ele o fazia tão bem; mas também enquanto seres humanos, porque Stewart é genuinamente um bom homem. Acredito que o que Colbert disse é verdade e acredito que Stewart foi fundamental para que todos eles (Colbert, Steve Carell, John Oliver, Larry Wilmore, etc.) seguissem os seus percursos independentes. Dos que conheço, John Oliver é o que seguiu um percurso mais próximo do de Jon Stewart e só por isso Stewart já merecia a minha admiração. Desconfio que o discípulo vai superar o mestre; provavelmente não em popularidade e influência política, mas em acutilância e espírito crítico. Mas não seria possível ultrapassar o mestre se não houvesse mestre.

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