Nespresso, Ferrero Rocher e Caldo Verde: o meu NOS Primavera Sound 2015

O plano estava estabelecido e era o mais óbvio e lógico possível: na quarta-feira, dia 3 de Junho, deitar cedo e cedo erguer, porque no dia seguinte tinha um comboio para apanhar, às 9:30h, com destino a Porto – Campanhã. A ideia era chegar fresco e com tempo para relaxar um bocado até à hora de me pôr a caminho do Parque da Cidade, onde começava o NOS Primavera Sound 2015. Teria corrido tudo bem, não fosse ter-se dado o apocalipse da Segunda Circular, na noite de quarta-feira. Embora os rumores já andassem a fazer correr tinta nos jornais desportivos (que, enfim, nesta fase do ano em que não há mais nada para falar se dedicam sobretudo aos rumores, muitos deles sem ponta de fundamento), foi nessa noite de quarta-feira, pré-Primavera Sound, que a bomba começou a aparecer em todo o lado: Jorge Jesus no Sporting.

Não vale a pena entrar em detalhes, mas faço questão de ressalvar uma coisa: aquilo que me manteve acordado nessa noite foi a expectativa face à próxima época desportiva. Uma expectativa boa, entenda-se, porque a saída de Jesus era o acontecimento pelo qual eu ansiava há pelo menos cinco anos. Finalmente o dia chegara e era melhor do que qualquer sonho húmido: não só Jesus saía, como assumia o comando do Sporting. Parecia bom demais para ser verdade: o clube de Alvalade não se contentava em ter um louco na cadeira de presidente, teria também um louco na cadeira de treinador. Todo este turbilhão de emoções, mais o turbilhão de notícias que iam aparecendo daqui e dali, fizeram com que eu tivesse tido bastante dificuldade em adormecer. Acabei por capitular algures entre as 5 e as 6 da manhã.

Com os óculos de sol a disfarçar os papos, cheguei a Santa Apolónia com tempo de comer qualquer coisa de substancial antes de me meter no Inter-Cidades com o meu irmão, para umas três horas e tal de internet (free wifi, bendita sois vós entre as mulheres – e numa nota sobre o assunto: no ano passado a internet era bastante mais periclitante, no Alfa-Pendular). Há dias, um amigo estava a falar-me dos benefícios da Internet grátis nos hospitais: as pessoas ficam muito mais calmas quando podem estar no Facebook enquanto esperam por saber se vão morrer ou não. Tenho a dizer que num comboio é igual, a viagem pareceu demorar pouquíssimo: as notícias sobre Jesus no Sporting continuavam a cair a bom ritmo e havia sempre comentários divertidos / deprimentes para ler.

Quando saímos em Campanhã constatámos, desde logo, que as condições climatéricas divergiam consideravelmente das que tínhamos encontrado em Lisboa, o que fazia com que as nossas mochilas cheias de t-shirts parecessem ridiculamente desajustadas. Ficámos por ali um bocado à espera da companhia para o almoço e neste intervalo vimos sair da estação o Pedro Mexia – o que me alegrou, apesar de ele não me ter visto / reconhecido, porque era reconfortante não ser o único crítico literário no Primavera Sound – e o Paulo Bento, o que me fez recordar uma vez mais as notícias futebolísticas e me fez sonhar com a notícia de que o ex-seleccionador nacional iria treinar o FC Porto (o que, até ver, não parece que vá acontecer). Havia ainda a possibilidade de Paulo Bento estar também a caminho do Primavera Sound, mas não foi possível confirmar esta informação no recinto.

Acabámos por rumar à Avenida dos Aliados, já guiados por uma nativa, e almoçámos no snack-bar Safari: a única refeição financeiramente simpática que faríamos nos três dias de estadia. A isto seguiu-se uma espécie de violação semi-consentida – digamos que nos “pusemos a jeito” ou que “estávamos a pedi-las” – na Ribeira. Escolhemos uma esplanada simpática com vista para o Douro e para Gaia, pedimos um café (eu) e um fino (o bêbado do meu irmão) e ficámos por ali a desfrutar da paisagem, da invasão bárbara, dos carros que absurdamente podem circular na Ribeira, dos helicópteros turísticos, enfim, todo este cenário pitoresco típico da cidade invicta, até que o empregado nos depositou a conta na mesa: sete euros. O meu primeiro impulso foi, obviamente, ler o descritivo, para ver em que é que ele se tinha enganado, porque o gin tónico estava na mesa ao lado, não na nossa, mas estava tudo certo: 2,50€ (dois euros e meio!) o café (um Nespresso, por amor de Deus, que é provavelmente a pior imitação de café que podem servir num estabelecimento comercial) e 4,50€ (quatro euros e meio) o fino. Só então percebemos que aquela esplanada pertencia ao Pestana Hotel, o que explicava o facto de ser a mais fancy, mas ainda assim não justifica o preço de um Nespresso (pior imitação de café de sempre, só para que fique bem claro, e o facto de o servirem devia ser suficiente para que reduzissem em duas estrelas a classificação do hotel), que nem um chocolatinho oferecia.

Perdoem-me. O trauma foi ultrapassado depois, de volta aos Aliados, onde pude beber um café a sério, por um preço normal, na companhia de mais dois festivaleiros que nos dariam boleia para o recinto. Analisámos o horário em conjunto e decidimos que nem o Bruno Pernadas (17h), nem os Cinerama (17:55h), nem tão pouco o Mikal Cronin (18:50h) nos faziam correr para o Parque da Cidade, pelo que nos deixámos estar por ali até cerca das 18h, o que nos permitiu chegar ainda durante a actuação do Cronin, que serviu de hora de jantar, no clássico do ano passado, Tachadinha. Antes disso, claro, foi a parte em que trocámos os bilhetes por pulseiras de acesso ao recinto. Ao contrário do ano passado, a organização decidiu oferecer-me um passe normal e não um passe de imprensa, salientando no e-mail que assim me permitiam “realizar o meu trabalho” na mesma. Tendo em conta que conheço algumas pessoas que tiveram, neste e noutros anos, acesso a essa zona de imprensa, sem que fizessem antes, durante ou depois do festival qualquer trabalho sobre o mesmo, digamos que não fiquei muito feliz. Se escrevo este texto é porque 1) diverte-me e 2) espero poder voltar para o ano, com um passe de imprensa, caso vá para fazer reportagem.

Depois do jantar, fomos ouvir o Mac DeMarco, no Palco NOS, às 20h. O jovem músico canadiano nunca me tinha convencido em disco, apesar de um certo hype que observei em torno do seu Salad Days, de 2014, e ao vivo também não me entusiasmou. Triste é pensar que, ao mesmo tempo, no Palco Pitchfork, actuava a Patti Smith, naquilo que todos pensavam que ia ser um espectáculo de spoken word e afinal foi mais um concerto acústico. Nem as jardineiras de padrão camuflado do Mac DeMarco serviram para atenuar a dor sentida quando encontrei amigos que tinham escolhido a Patti: os relatos afirmavam ter sido mágico. Enfim, consolou-me o facto de ter, no dia seguinte, outra oportunidade de a ver, num concerto em que revisitaria o seu icónico disco Horses, de 1975.

Às 21:10h, já de noite e já certo de que o casaco com capuz que trouxera não era suficiente para mitigar o frio portuense, fomos para o palco ao lado, o Palco Super Bock, para o concerto de FKA Twigs. Ao contrário do que sucedera com Mac DeMarco, da FKA Twigs nem sequer um disco completo tinha ouvido. Estava, ainda assim, disposto a ser surpreendido, até me esmerei no look, mas o concerto fez-se de uma hora de expectativa, em que todas as canções pareciam prestes a explodir para algo interessante, que nunca chegava. Lamento, FKA, mas também não me convenceste. E com isto tudo o primeiro dia ameaçava ser o pior primeiro dia de Primavera Sound de sempre. Não fosse haver Caribou à 1:10h e acho que me teria ido embora logo ali.

Eu vestido a rigor para FKA Twigs. Foto da Daniela Monteiro.
Antes, porém, havia Interpol e The Juan MacLean. Estando na companhia de um fã de Interpol, decidi dar também uma oportunidade aos norte-americanos do indie rock (um estilo que se caracteriza por ter uma banda interessante, os National, e infinitas bandas aborrecidas, quase todas indistinguíveis umas das outras). Não me encheu as medidas, é verdade, mas foi melhor que os anteriores. O meu amigo-fã-de-Interpol gostou muito, o que talvez eu compreenda, porque nunca os tinha visto. Outras pessoas queixaram-se de que a voz do Paul Banks estava um caco, mas que tinha sido bonzinho, outras disseram que foi ridiculamente mau. Acho que tem tudo a ver com a relação prévia que se tem ou não com a banda. Eu não tinha e achei razoável. A comparação com os concertos anteriores favorecia os Interpol. Ainda assim, o fantasma de pior primeiro dia continuava a pairar no ar.


A seguir havia The Juan MacLean e a minha linha de raciocínio foi: nunca ouvi, nunca ouvi sequer falar, doem-me as pernas, e as costas, e tenho frio, e já começo a ter fome outra vez. A decisão foi aproveitar esta hora para descansar e recarregar baterias para o concerto de Caribou. Ouvi, depois, alguns relatos de que Juan MacLean tinha sido bem bom, mas ninguém me pareceu tão entusiasmado que me fizesse sentir arrependimento. O descanso soube bem e, bem vistas as coisas, já tinha dado três oportunidades a artistas e nenhum dos três as soube aproveitar. Há que ter limites na benevolência.

Ao fim de um longo e complicado dia, depois do Jorge Jesus, do Nespresso, dos concertos entediantes, com as pernas a reclamarem descanso e o corpo a reclamar agasalho, consegui encontrar algures a energia para abanar o corpo ao ritmo do Caribou, um dos stage names de Dan Snaith, mestre canadiano da electrónica IDM. O concerto arrancou com a belíssima e hipnótica “Our Love”, do disco homónimo de 2014. Pelo meio houve espaço para a contagiante “Odessa”, do álbum de 2010 Swim, e para o hit do mais recente disco, “Can’t do without you”, uma espécie de balada da electrónica. Foi o concerto que salvou o dia, mas foi também um grande concerto por si só, sem precisar de comparações com os restantes. O dia acabava bem, o que levantava o ânimo para a sexta-feira que se seguia, que tinha tudo para ser épica.

Depois de uma noite bem dormida e o tradicional almoço no McDonald’s da Póvoa, com camisolas emprestadas pelo nosso anfitrião, rumámos ao Parque da Cidade com tempo para calmamente nos encaminharmos para o Palco Super Bock onde tocariam, às 17:55h, os Giant Sand. Com trinta anos de carreira, os americanos de Tucson (diz-se assim), Arizona, liderados pelo mestre Howe Gelb (cujos discos a solo são maravilhosos), espalharam magia com a sua americana com toques de country, rock e blues em doses perfeitas. Foi, sem grandes dúvidas, um dos melhores concertos, senão mesmo o melhor, de todo o festival, que deixou rendidos não apenas aqueles que já conheciam o seu trabalho mas também os curiosos. Como é costume nos primeiros concertos, o público ainda está em números bastante mais reduzidos, o que me permitiu ver o concerto quase nas grades. No fim do festival, cheguei à conclusão que este é um factor determinante para a fruição: os concertos vistos mais perto do palco acabam por ser quase sempre os melhores.

Mal terminou Giant Sand, a debandada para o palco ao lado foi furiosa: às 19h começava o concerto de Patti Smith e parecia que ninguém queria perder o momento. Chegado ao Palco NOS quando a multidão já se aglomerava, optei por ficar à margem, desfrutando a uma distância considerável. Não teve, por isso, a envolvência que torna concertos em momentos inesquecíveis, mas foi uma belíssima actuação, revisitando o icónico Horses e outros clássicos como a “Because The Night”, do álbum Easter (1978). Patti Smith, quase com setenta anos, mostrou que é uma das artistas que melhor envelheceu, mantendo praticamente intacta não apenas a sua atitude, mas também a sua voz. Os fãs não saíram defraudados e quem, como eu, tinha escolhido Mac DeMarco no primeiro dia, teve oportunidade de corrigir o erro e sair de coração cheio. Pudéssemos todos envelhecer assim.

O festival continuava para o palco do lado, o Super Bock, onde estava quase a começar o concerto do sueco José González (sim, sueco; os pais são argentinos, o que talvez ajude a explicar o nome). Antecipando que não seria o concerto mais entusiasmante do mundo, decidi ficar na encosta lá atrás, sentado na relva. O sueco é um daqueles artistas da folk choninhas que por muito bons que sejam em disco (e González nem sequer é dos meus preferidos) só dificilmente resultam num festival deste tipo, num palco daquele tamanho. É só desajustado, como seria ter uma banda punk numa casa de fados, e não resulta muito bem. Tanto que ao fim de quarenta minutos decidi ir comer qualquer coisa, para poder fazê-lo com tempo antes do concerto de Sun Kil Moon, às 21:45h.

Com o avanço de ter abandonado mais cedo o concerto de José González, tive tempo de arriscar sair do recinto e ir jantar ao Boka Loka Grill, outra paragem tradicional por alturas de Primavera Sound. Não é que a coisa compense assim tanto, mas sempre é uma mudança de ares. A parte chata foi o Boka Loka estar bastante concorrido àquela hora e o serviço não ser propriamente expedito. Quando comecei a comer já estava quase na hora de voltar para o recinto, mas acabou tudo bem e cheguei a tempo de conseguir furar pela massa de gente, garantindo um lugar privilegiado para ver os maus fígados de Mark Kozelek.

Era o concerto que mais aguardava, porque era o nome do cartaz que mais me apelava ao sentimento. No entanto, não ia com esperança de momentos épicos: já sabia que o senhor Kozelek pode ser um bocadinho irascível e não tinha grande fé com o cenário festival, ainda para mais no Palco Pitchfork, vulgo “tenda”. Em 2014, Kozelek tinha lançado, como Sun Kil Moon, o genial Benji, que ouvi até à exaustão, mas muito perto da data do Primavera, sem que eu estivesse para isso preparado, tinha saído um disco novo, Universal Themes. Não o ouvi mais que duas vezes e não me entusiasmou por aí além. Tão pouco tempo depois de Benji, era difícil manter os padrões àquele nível. Felizmente para mim e para o mundo em geral, Kozelek e companhia (estava o Steve Shelley, dos Sonic Youth, na bateria, e o Neil Halstead, dos Slowdive, na guitarra; ainda ouve uma participação, numa faixa, do Vasco Espinheiro dos Blind Zero) tocaram algumas canções de Benji, embora também tenha havido espaço para o novo álbum. No geral, a actuação foi boa / esquisita. Houve um dueto bizarro com Yasmine Hamdan, que parecia desejosa de abandonar o palco mas incapaz de o fazer perante a insistência parola de Kozelek, houve berros mais ou menos aleatórios e houve momentos humorísticos, como quando disse que estava gordo por comer demasiado Caldo Verde (Kozelek tem uma editora chamada Caldo Verde Records) ou quando perguntou que banda é que estava a fazer tanto barulho no outro palco (numa alusão ao desacato que teve com os War on Drugs, que deu origem a uma curiosa canção). Quando tudo aquilo acabou a sensação que me invadia era uma espécie de: não foi bem para isto que vim, mas não foi mau de todo. Repetia.

Seguia-se, no programa das festas, outra das bandas que constava da minha lista a-não-perder: os escoceses Belle and Sebastian. Havia atenuantes, como o facto de não ter ouvido os discos mais recentes da banda, excepto o último, que me pareceu fraquinho, mas a história da trupe de Glasgow está recheada de canções maravilhosas. Também é verdade que à mesma hora, no palco ATP, tocavam os Spiritualized, mas como já os tinha visto no primeiro ano de Primavera Sound no Porto, a escolha foi fácil. No final, contudo, fiquei com dúvidas se tinha sido a escolha acertada. Apesar de terem tocado alguns clássicos, a actuação dos Belle and Sebastian foi demasiado perfeita: e com isto quero dizer que parecia um disco a tocar e não uma banda a actuar ao vivo. Houve demasiada artificialidade em tudo aquilo, tudo demasiado perfeito, como a voz de Stuart Murdoch em pleno crowdsurfing, e pelo menos um instrumento que começou a tocar antes de Stuart se aproximar dele. Descontando essa plasticidade, que me impediu uma empatia mais directa, foi uma festa divertida.

Depois dos escoceses, vinha o momento esquisito do festival. À meia-noite e um quarto, no Palco NOS, actuava Antony and The Johnsons. Até aqui, tudo bem, mas não havia alternativa. Não havia nada a acontecer em nenhum dos outros três palcos. Tirando o primeiro dia, em que nunca há sobreposições (excepto este ano, com o tal concerto extra da Patti Smith ao mesmo tempo que o Mac DeMarco), na sexta e no sábado há sempre alternativas. Faz parte: não gosto disto, vou ver aquilo. Não sabendo a que se deveu este capricho do horário, assumo que terá sido imposição do artista – o que, tendo em conta a especificidade da sua sonoridade (perdoem-me a aliteração), compreendo –, mas a ser assim teria sido mais lógico colocá-lo no primeiro dia. Não sendo fã de Antony, aproveitei este momento em que mais nada se passava para descansar um pouco, na zona de restauração, até porque a seguir havia Run The Jewels. Por esta altura, recebo mensagem do meu anfitrião a dizer que se ia embora a seguir ao Antony, o que me deixava pendurado, a não ser que abdicasse dos RTJ. Como esta última não me pareceu uma opção viável, escolhi a opção de ficar pendurado. Depois logo se via o que fazer.

À uma e meia da manhã chegava eu ao Palco ATP, onde dali a dez minutos começaria o concerto de Run The Jewels. A dupla de rappers americanos, formada por El-P e Killer Mike, juntara-se em 2013 (depois de mais de dez anos de carreira a solo de ambos), com um álbum homónimo do projecto a dois, lançado gratuitamente na Internet. Em 2014 chegaria a sequela, Run The Jewels 2, e com ela uma maior projecção mediática. A comprová-lo estava o mar de gente que os aguardava e o mar de gente que cantava versos rapidíssimos com os dois MCs. Apesar de uma completa ausência de musicalidade – isto é, só se ouviam os graves violentíssimos das batidas –, o momento rap deste Primavera Sound valeu pela simbiose entre artistas e público e pela mensagem política subjacente à dupla norte-americana, que fez questão de a reforçar (pelo voz de El-P, o mais comunicativo dos dois) entre músicas. Houve ainda oportunidade para duas miúdas subirem ao palco, alegadamente por terem passado o dia a bombardear a banda no Twitter com pedidos para tocar uma música. No palco, nunca se percebeu muito bem o que é que era suposto elas fazerem, porque nem El-P nem Killer Mike lhes deram grande atenção, mas no final talvez as tenham levado para o backstage para momentos de amena confraternização.

Sem saber muito bem o que fazer a seguir, fui até à zona de restauração com o meu irmão e ficámos por ali a descansar. Eventualmente acabámos por encontrar uns amigos, que nos ajudaram a perceber que só poderíamos ir para casa no primeiro Metro da manhã, às seis e meia. No Palco Pitchfork actuavam Movement e, de seguida, Marc Piñol, mas nós preferimos ficar por ali a pensar futebol: sim, nem durante o festival o tema Jorge Jesus e a incógnita da próxima época nos deram descanso. Lá para as cinco e tal um dos nossos amigos deu-nos boleia até Campanhã, onde apanhámos o metro para a Póvoa, já mal sentindo as pernas. Ainda arranjámos forças para comer qualquer coisa antes de cair na cama para uma merecida noite – perdão: manhã de sono.

Quase sem darmos por isso, já era sábado, o último dia do festival. O nosso anfitrião não estava em casa quando acordámos, nem iria connosco para o recinto, porque havia um jogo importante do Varzim, no play-off de acesso à Segunda Liga (o futebol continuava a perseguir-nos). Como eu queria muito ver o Baxter Dury, que tinha perdido na primeira edição do festival no Porto, às 17h apanhámos o Metro para o Porto. O concerto começava às 18:40h e, uma vez mais, havia ainda pouca gente no recinto e espaço suficiente para nos acercarmos das primeiras filas. O músico britânico trazia na bagagem um disco de 2014, It’s a Pleasure, que eu conhecia mal, mas felizmente tocou muitas canções do excelente Happy Soup, de 2011. Com uma presença em palco bizarra e excêntrica, trocando várias vezes as interacções com o público por gargalhadas, Baxter Dury foi espalhando a sua jinga invejável e lançando para o público bombons Ferrero Rocher. Num voo ao nível dos melhores apanhadores de beisebol, consegui o meu – ser pobre tem disto, um bombom é melhor do que nada, e fiquei feliz por o Baxter ter tomado a liberdade de pensar nisto. Apesar da hora e da dispersão do público, a empatia cresceu e o concerto foi muito bom: mais um para a lista dos melhores do certame.

Às 19:50h, no palco ao lado, havia Foxygen. Não sendo fã, optei por ficar sentado na encosta a assistir ao circo. E devo dizer que, de longe, o circo era bastante triste. Dali não era possível ser contagiado pela festa e a música não cativava. Tanto assim foi que a meio decidi ir-me embora e espreitar as Babes in Toyland, no palco ATP. A banda punk norte-americana, formada em 1987, terminada em 2001 e reunida em 2014, era-me desconhecida, mas isso não impediu que as três veteranas conseguissem entusiasmar-me muito mais do que os Foxygen. Infelizmente, também não fiquei até ao fim, porque às 21h, no palco Pitchfork, actuava o Kevin Morby, que não queria perder.

O texano, ex-baixista dos Woods, vinha apresentar o seu disco de 2014, Still Life, onde consta a incrível “All of My Life”, sucessor de Harlem River, do ano anterior. No palco NOS, à mesma hora, actuava Damien Rice, o que talvez justifique o facto de estar bastante gente para ver o Kevin Morby (a sério, Damien Rice em 2015?). O jovem, com o seu ar tímido, não defraudou os curiosos e deu um belíssimo concerto, trazendo um pouco da folk norte-americana à tenda, como já tinha feito Kozelek no dia anterior. Na verdade, foi tão bom que eu fiquei até ao fim, ignorando que às 21:40h começava no palco ATP o concerto dos Einstürzende Neubaten. Só quando terminou a actuação de Morby é que me pus a caminho do palco ATP, para espreitar a banda alemã.

Formada em 1980 na Berlim Ocidental, o experimentalismo industrial dos Einstürzende Neubaten tem granjeado uma vasta legião de fãs ao longo dos anos. Infelizmente, o som que chegava do palco Super Bock, onde tocavam os Death Cab for Cutie, fez com que fosse impossível desfrutar do concerto, que pedia outro recolhimento, outra envolvência. Não tenho, realmente, nada a dizer: foi-me impossível apreciar a parte do concerto a que assisti, face às condições. Talvez do outro lado do palco, mais resguardado do ruído que vinha lá de baixo, tenha corrido melhor. Onde me encontrava, contudo, não estava a funcionar. Acabei por abandonar antes do fim para ir comer.

Depois do merecido descanso e da merecida refeição, às 23:30h havia Ride no palco NOS. Mais uma banda histórica, formada em 1988 no Reino Unido, juntaram-se novamente em 2014 para uma reunion que passou pelo Parque da Cidade, para gáudio dos shoegazers. Vi por lá o Pedro Mexia, mas do Paulo Bento nem sinal. Os veteranos britânicos deram um concerto bastante competente mas a que faltou alguma chama. Ainda assim, valeu a pena ficar do princípio ao fim, nem que seja porque a oportunidade talvez não se repita.

Mudando de palco, mudava-se completamente de registo. À meia-noite e quarenta, no palco Super Bock, Dan Deacon vinha pôr a multidão a dançar. Conhecido pelas brincadeiras que tenta fazer com o público, o americano de Baltimore não se atemorizou com o facto de estar num palco enorme, com uma plateia imensa. Mandou dividir o público em dois, definiu líderes de facção para orientar as danças e não se cansou de interagir. Os jogos correram quase sempre mal, porque naquele mar de gente não havia como correr bem, mas dançou-se bastante, apesar de não ter sido uma actuação explosiva. Deacon fez-se acompanhar por um baterista, numa escolha que não resultou particularmente bem, mas rendeu pelos momentos de diversão.

A seguir havia mais música de dança no palco NOS, com os Underworld. Acontece que não sou particularmente fã (acho que disse isto em relação a demasiadas bandas do festival) e estava bastante mais curioso para ver Pharmakon no Pitchfork, pelo que foi para lá que segui. A norte-americana Margaret Chardiet, que se esconde por detrás do nome Pharmakon, entrou em palco para martelar numa chapa de metal. É difícil descrever o que se passou nos 50 minutos de concerto, mas a experiência é incrível. Foi o momento mais pesado, experimental e esquisito do festival, mas foi tão bom que merece um lugar no top dos melhores concertos. Numa mistura entre a electrónica, o industrial e o noise, Pharmakon é uma espécie de banda-sonora fantasmagórica para pesadelos tenebrosos. A actuação hipnotizante teve pouca gente a assistir o que beneficiou quem lá estava, que desfrutou de um concerto com maior proximidade. A certa altura, Margaret desceu para o meio do público e andou por ali a perseguir pessoas enquanto berrava ao microfone, cujo fio se ia enrolando e sendo desenrolado pelos técnicos sem mãos a medir. No final havia muita gente de olhar perdido, como se se perguntassem: o que é que foi isto?

Durante o concerto já me tinha ocorrido: e o anfitrião, ainda cá anda? Depois de uma complexa troca de mensagens, cheguei à conclusão de que não, não andava, pelo que se avizinhava mais uma noite a pé. Posto isto, ainda fui ver o final de Underworld, que deve ter sido o concerto mais longo do festival. Pareceu-me bem, mas não me arrependi nada de ter ido a Pharmakon. E quando terminou Underworld fomos descansar e beber qualquer coisa e pensar na vida.

Já perto das 4 da manhã fomos para a tenda Pitchfork, para o DJ set de Roman Flügel, que encerrava o festival. Conseguimos encontrar uns amigos e fomos ficando por ali, mas a pista teimava em não aquecer. Não foi a despedida mais épica do Primavera, mas foi a despedida possível. Havendo metro, ter-me-ia ido embora logo a seguir a Pharmakon. Não havendo, a malta fez um esforço. As dores nas pernas já não ajudavam à paciência e assim que se aproximou a hora do primeiro metro, pusemo-nos a caminho de paragem. Até porque íamos chegar à Póvoa com tempo para dormir meia-horinha, fazer as malas e regressar a Campanhã, para apanhar o comboio para Lisboa.

Ainda houve tempo, na Senhora da Hora, onde tivemos de trocar de linha a caminho da Póvoa, para um guna se meter connosco. Quando eu lhe disse que era de Setúbal, ele perguntou: “Isso é no Algarve, não é?” Ao que eu respondi que era mais ou menos. “E Lisboa também é no Algarve, não é?” Não é bem, mas caga nisso, a sério. “Sabes que isto aqui é outra realidade. Aqui é logo para a porrada, é logo chapada na cara.” Sei, amigo, sei. Entretanto pediu-me um euro e eu ri-me porque não tinha dinheiro sequer para a viagem de metro (obrigado, mano!), mas ele não percebeu e pediu ao meu irmão, que depois de muita insistência deu-lhe um euro dizendo: “Um euro são trocos, toma lá”. Não estando familiarizado com usuais da Internet, o guna não percebeu e ficou ligeiramente ofendido. Ainda fez algo parecido a cuspir para os pés do meu irmão, quando se foi embora, pedindo: “Arranja-me lá 20 euros! Eu sei que tens! Vá lá, que eu tenho de apanhar este!” Infelizmente, quando eu ia sacar da nota, a porta fechou-se. DESCULPA!

Foi uma forma bizarra de a cidade do Porto se despedir de nós, reforçando a minha convicção de que por muito bonito e fixe que o Porto seja, Lisboa é melhor. O que não quer dizer que não volte para o ano, com todo o gosto, e se deus quiser com a carteira mais recheada, para ajudar os gunas da invicta.

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