Desemprego e canas de pesca

O desemprego não é nada de novo, nem para mim nem para muitas (demasiadas) pessoas, mas continua a doer que se farta. Não há repetição que torne a situação suportável, não há forma de isto calejar e ser ignorado. Ainda bem que assim é, por um lado, porque a revolta fermentada é mais saudável do que o abandono de tudo e a aceitação de que é assim mesmo. Sou daqueles idiotas que faz questão de não partir. É aqui que quero estar, é aqui que quero construir qualquer coisa, mesmo quando os governantes mandam embora a minha geração e depois a chamam de volta, como destruíram a pesca e depois a quiseram impulsionar.

Não é fácil explicar em palavras o sofrimento silencioso que esta situação provoca. Não será igual para toda a gente, mas custa muito a muitos. À beira dos trinta, a minha vida tem sido recheada de empregos precários e muitos regressos a casa dos meus pais. É aqui que estou, de novo, sob uma pressão imensa que não ajuda nada, vendo-me confinado a uma cidade de que não gosto, onde a única coisa que me salva são os meus poucos amigos que ainda cá estão. Mas tenho muitos outros em Lisboa, onde vivi e trabalhei em vários períodos, Lisboa que fica a uma hora de viagem, e dói muito não ter dinheiro sequer para lá ir de vez em quando beber uns copos. Como dói não ter dinheiro para ir ao cinema, para ir ao jantar de aniversário de uma amiga, para beber um café.

Eu tenho sorte, porque assim que digo aos meus pais que não tenho dinheiro eles dão-mo, mas também tenho uma pinga de orgulho que me faz aguentar até à última esse momento de confrontação. Porque é sempre uma confrontação: eles, com toda a razão, acham que isto não é vida e eu tenho de ouvir coisas desagradáveis e engolir, porque preciso do dinheiro e é essa a condição para o ter. Mesmo que às vezes expluda, porque há coisas que eu não devia ter de ouvir. Devia ser normal eu querer ganhar a vida a fazer coisas de que gosto, devia ser normal eu poder construir uma vida sem ter escolhido um curso “com saída”, devia ser normal os meus pais viverem a sua reforma em descanso e sem terem de se preocupar com os filhos adultos que continuam dependentes.

Há uns meses, comecei a escrever um romance. Durante algumas semanas consegui dedicar-me a ele quase em regime de full-time. Já me imaginava a vencer um prémio literário e a ouvir pessoas a falarem do meu desemprego como uma oportunidade de vida e eu mandá-las para o caralho. O conto de fadas só muito raramente acaba assim, meus caros. O que aconteceu foi que o dinheiro com que vivia, do meu último trabalho, chegou ao fim e a depressão instalou-se. Quando isto chega a este ponto, o saldo da minha força de vontade espelha o da minha conta bancária. Não há motivação que resista, não há capacidade mental para juntar palavras em frases e fazer qualquer coisa com qualidade. Não tenho pejo em admitir a minha fraqueza: entro num ciclo vicioso em que não tenho vontade de fazer nada, logo não consigo mudar a minha situação, ou sequer tentar, logo a situação não muda, logo não tenho vontade de fazer nada, logo não consigo mudar a minha situação, logo ad infinitum.

Por esta altura o meu irmão começou a jogar Fallout 3 e eu acabei por imitá-lo. Andei viciado uma semana, mas acabei o jogo depressa. Depois o meu irmão começou a jogar Skyrim, dos mesmos criadores, e eu imitei-o e suplantei-o e andei viciado durante um par de semanas, talvez. Joguei Skyrim em full-time, com horas extraordinárias e pausas apenas para refeições e para dormir. Nas poucas horas vagas, aquelas entre deitar-me na cama e adormecer, lia sobre o jogo na Internet, procurava dicas para ultrapassar situações, como construir as melhores armas, como fazer as melhores poções (fiz uma tabela com as combinações de ingredientes), como ganhar muito dinheiro. Em Skyrim (o nome do jogo é também o nome da zona onde decorre a acção) consegui ser rico e poderoso. Comprei casa em quatro cidades, casei, tinha guarda-costas, a minha roupa (armadura, vá) fazia inveja a toda a gente, a minha arma era a mais poderosa, o meu cavalo era imortal, eu era um herói, líder do clã dos ladrões, líder do clã dos assassinos, salvador do mundo que matou o mais poderoso dos dragões, o mais importante soldado do exército de libertação contra o império opressor, o director do colégio dos feiticeiros, etc.

Não me envergonho (não publicaria este texto se me envergonhasse) de ter jogado mais de cem horas de Skyrim, de ter desperdiçado mais de cem horas de vida que podia ter ocupado a escrever e a procurar empregos e a fazer qualquer coisa de útil e produtiva para o meu futuro ou pelos outros. Não me envergonho porque precisei disto, precisei de, durante estas semanas, viver longe da minha realidade, longe desta situação sufocante onde as notícias são tão deprimentes, tão repetitivas na mediocridade que mostram, que não tenho sequer vontade de as comentar. Precisei de umas férias na neve de Skyrim, porque na vida real, nesta onde escrevo este texto, não tenho dinheiro sequer para um fim-de-semana no Algarve. Não que eu quisesse passar um fim-de-semana no Algarve, mas gostava de ter essa possibilidade.

Agora que acabei o Skyrim (na verdade o jogo não tem fim, podemos continuar sempre a vaguear pelo mundo e a completar missões menores, mas já completei as principais e já sou demasiado poderoso para que os combates se resolvam todos com um golpe da minha espada ou uma flecha do meu arco) estou de volta ao mundo, sem saber muito bem o que fazer. O tempo que entretanto passou desde que acabei a primeira parte do romance (trinta e três mil palavras) teve o efeito que eu esperava: já não me parece assim tão bom. Prometi a mim mesmo que não desistia, quando o comecei, porque acredito que a história é boa e importante, mas o que é que faço? Avanço para a segunda parte (tenho cinco planeadas) e no fim logo alinhavo tudo ou edito já esta parte à séria ou começo tudo de novo? E quando estiver outra vez na merda e tiver de pedir dinheiro e não tiver força para nada, muito menos para escrever um romance?

No meio deste lodaçal, há coisas boas. O livro de poesia que publiquei no ano passado está quase esgotado, tenho mais um livro de poesia e um de contos acabados e prontos a serem publicados. Continuo a escrever no Público, ao ritmo irregular que o meu sentido de ética permite (tento escrever só sobre autores / temas dos quais já tenho conhecimento). Continuo envolvido em projectos independentes que vão dando gozo. Só que o problema também é esse: todas estas coisas boas dão gozo, mas nenhuma dá sustento. Sou um autor publicado, sou crítico literário no melhor jornal do país desde os vinte e seis anos, sou um desempregado que nem entra nas estatísticas, porque já não estou inscrito no Centro de Emprego, porque perdi a paciência para as sessões de apresentação de medidas de empreendedocoiso, sou pobre.

Valho mais do que um salário mínimo ao fim do mês e vou continuar a acreditar nisso até não ter forças. Não me conformo com a mediocridade, não me resigno ao “é pouco mas já é qualquer coisa”, não me revejo no empobrecimento que nos querem impingir. Ser pobre e estar desempregado não me faz contentar-me com o pouco que apareça, mesmo que para isso tenha de continuar a viver no fosso por mais uns meses. Como diz aquela alegoria, não quero o peixe, quero a cana de pesca. Mas se me estenderem uma cana enferrujada e sem linha, tenho o direito de não lhe pegar a não ser para a enfiar num certo sítio da pessoa que ma estenda.

1 comentário

  1. Como tu, uma imensidão. Por que não nos juntamos, (sem politiquices pelo meio), e exigimos o país que também é nosso? há-de sempre a minha questão.

    Um abraço.

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