O equilíbrio das balanças

Pude hoje, depois de um mês de expectativa, ver no cinema Sono de Inverno, o filme que arrecadou a Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado, do realizador turco Nuri Bilge Ceylan. Já o podia ter visto em casa, que ele já circula pela Internet há algum tempo, mas decidi esperar, provavelmente porque os dois outros filmes que vi do realizador tinham-no colocado na minha lista de pessoas a seguir com atenção. Na verdade, ontem (quarta-feira) tinha decidido que se hoje (quinta-feira), dia em que chegam filmes novos às salas de cinema, Sono de Inverno não chegasse à sala aqui da terrinha onde passam os filmes alternativos, iria vê-lo em casa, defunta que estaria a esperança de o ver no grande ecrã.

Quando hoje de manhã vi os filmes em cartaz, para a dita sala, vi que o meu silencioso ultimato tinha surtido efeito. Esta sala exibe apenas dois filmes por semana: um durante toda a semana, às 21h30 (esta semana, como tem acontecido nas últimas, é um candidato ao Oscar, A Teoria de Tudo), e outro apenas quinta e sexta-feira, às 18h. E lá estava, hoje e amanhã, Sono de Inverno, às 18h. O que significava, dado que o filme tem três horas e um quarto, que só terminaria perto das 21h20, arruinando toda a hora de jantar de qualquer família normal. Porém, convenhamos, há coisas mais importantes do que o jantar. E só tinha duas oportunidades. Decidi aproveitar a primeira, para não arriscar.

Sono de Inverno é um filme sobre pessoas, as relações que estabelecem entre si e o seus conflitos interiores. Foca-se, sobretudo, em Aydin (interpretado por um brilhante Haluk Bilginer), um ex-actor, proprietário de um hotel de turismo rural e que ocupa os seus dias a escrever crónicas para um jornal regional, e na relação deste com a sua mulher, Nihal (interpretada por uma brilhante Melisa Sözen), muito mais nova do que ele, que ocupa os dias em projectos de beneficência, tentando angariar fundos para apoiar as escolas primárias da região.



Aquilo que Ceylan explora de forma brilhante é a relação de poderes entre as personagens envolvidas. E fá-lo de forma brilhante porque, a cada conversa ou discussão, o espectador demora algum tempo a tomar partido. O servil Hamdi, inquilino de uma casa que é propriedade de Aydin, inspira uma certa compaixão quando justifica o não pagamento da renda, mas o seu servilismo é tão exacerbado, o seu sorriso tão omnipresente, que inspira também desdém, repulsa, porque se rebaixa onde não se rebaixaram o seu irmão e o seu sobrinho, revoltados com o senhorio e a forma como este os trata. Não há como escolher: de um lado os pobres, que são servis (Hamdi) ou violentos (o seu irmão), do outro o senhorio abastado, a quem são devidos meses de renda e que é frio e distante para com as dificuldades dos seus inquilinos, preferindo delegar todos os assuntos ao seu empregado e aos seus advogados.

Também na relação com a mulher, é difícil escolher um lado. Aydin e Nihal vivem apartados um do outro. Ela não se mete nos assuntos dele, ele não se mete nos assuntos dela. Porém, o grande tema do filme é a errância emocional de Aydin e, nestes caminhos, acaba por se envolver nos assuntos da mulher, gerando, pelo inusitado do acto, consternação. Ainda que possamos compreender o desconforto de Nihal, mais ainda à medida que a vamos conhecendo, que se apoiara naquelas angariações de fundos como o seu projecto de vida, a sua forma de se sentir útil e viva naquela casa onde se sente uma prisioneira, podemos sentir também simpatia pelos avanços de Aydin, pelo interesse que parece nascer nele em relação aos assuntos da mulher. Mesmo que seja brusco e inconveniente, as suas intenções parecem genuinamente boas: alertá-la para a necessidade de organizar bem toda a sua actividade, de prestar atenção às pessoas com quem se envolve, manter registos de tudo e garantir que o dinheiro angariado chega às pessoas necessitadas.

A certa altura fica-se com a impressão de que Aydin não quer, afinal, saber das actividades da mulher e que a mulher parece não querer, também, saber assim tanto dos objectivos do seu trabalho. Como se um e outro existissem apenas enquanto dois pratos de uma balança, cujo único objectivo é manterem o equilíbrio, para o qual precisam sempre que o outro não se torne nem mais leve, nem mais pesado. Tudo o resto, em redor de um e outro, são apenas pesos que colocam para ajustar este equilíbrio. Não são fins em si mesmos, porque o fim em si mesmo é este equilíbrio.

Numa balança bastante mais agitada vive a relação de Aydin com a irmã, Necla. Também aqui é impossível tomar um partido: nenhum dos dois emerge da discussão como o dono da razão. Ceylan é absolutamente magistral neste aspecto, no modo como escapa a qualquer maniqueísmo, quando seria muito fácil, tendo Aydin como protagonista, fazer dele a vítima ou o culpado de tudo. É o espectador quem tem de decidir onde é que ele é culpado e onde é que ele é vítima. E qualquer leitura honesta terá de chegar à conclusão óbvia: como na vida, nas pessoas que conhecemos, em nós mesmos, Aydin é vítima e culpado em quase tudo. As acusações que Necla atira a Aydin são tão válidas quanto as que Aydin atira a Necla.

Se pensarmos em termos de enredo, não há um fio que prenda a atenção. No entanto, as três horas e um quarto não custam a passar: eu teria ficado, de bom grado, mais três horas no cinema a ver a continuação da vida daquelas personagens. O filme é inspirado em dois contos de Tchekhov, que já tenho aqui para ler (e talvez depois faça um artigo sobre a relação do filme com os contos), e a abordagem psicológica é bastante fiel àquilo que estamos habituados a ler em autores como Tchekhov, Dostoiévski ou Tolstoi. E é dessa agitação psicológica, essas explosões e plot-twists invisíveis, que vive o enredo deste filme. Não precisamos, sequer, de ouvir as personagens a pensar: os seus rostos, a linguagem corporal e as suas acções, mais até do que aquilo que dizem, servem de substituto perfeito para qualquer monólogo interior. E aqui temos de reconhecer o trabalho irrepreensível dos dois actores principais, que juntamente com Ceylan formam a tríade que faz de Sono de Inverno uma obra-prima.

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