Ambição e robustez

Numa tentativa constante de me focar no que é mais importante, ao actualizar hoje as minhas subscrições de feeds de blogues fui parar ao blogue de H. G. Cancela, autor de quem nada sei a não ser que tem alguns títulos publicados, entre poesia e romance, pelo menos. O post mais recente, de Novembro, intitula-se Um luxo das elites, e este meu post é uma espécie de resposta a esse texto de Cancela.

O que se discute não é uma questão nova: as edições de tiragem reduzida que algumas editoras praticam (normalmente oscilando entre os 50 e os 300 exemplares), muitas das quais declaradamente únicas (isto é, não reeditados quando esgotados os exemplares dessa tiragem). É, contudo, um assunto que se mantém actual e pertinente, no meio editorial, porque são cada vez mais as editoras independentes a funcionar nestes moldes.

O título que Cancela deu ao seu texto de opinião denuncia-a logo (à opinião). Permitam-me discordar. Se o autor ressalva que esta opção pode ser “uma resposta à escassez da procura e uma consciente opção de controlo de riscos, garantindo a sustentabilidade dos projectos”, acertando, logo a seguir diz que isso “inibe igualmente a possibilidade de que as editoras ganhem a robustez financeira capaz de suportar programas mais ambiciosos”. Aqui atira ao lado.

Este argumento assenta no discurso economicista do crescimento, e utiliza um adjectivo perigoso: ambicioso. O que é um programa ambicioso? Para mim, o programa de muitas editoras independentes, de tiragens limitadas, é ambiciosíssimo. Infinitamente mais ambicioso do que os programas de grandes editoras ou grupos editoriais. E se essas editoras, pasme-se, virem as coisas também assim e não quiserem a dita “robustez económica”? Ou se essa robustez assentar no simples garantir que uma determinada edição pague os seus custos e dê o lucro suficiente para se avançar para a próxima?

Esta posição não é, nem pode ser vista, como frágil (por oposição a robusta) nem como pouco ambiciosa. O que, justamente, faz destas editoras projectos interessantíssimos – com propostas editoriais refrescantes e arriscadas, muitas vezes bem mais do que aquelas que os grandes grupos apresentam – é o ponto de vista diferente sobre o mundo editorial, sobre o papel do editor. Pois se estas editoras independentes se limitassem a replicar o funcionamento das grandes, o que trariam de novo?

Quando Cancela diz que “as pequenas tiragens implicam sempre escassa distribuição, centralizada e dirigida a uma pequena comunidade de interessados”, está a atirar outra vez ao lado. É verdade que nenhuma pequena editora distribui os seus livros com a amplitude nacional com que os grandes grupos distribuem os seus, mas isso não é sinónimo de centralização. Claro que não encontramos livros destes editores independentes nos hipermercados, nem nas estações dos Correios, mas, além de alguns aparecerem em cadeias como a Fnac (embora eu não o considere, de todo, necessário), há sempre um esforço de distribuição pelas livrarias independentes nacionais. Não é tanto a distribuição que é escassa e centralizada, são os leitores que centralizam as suas fontes de informação.

Referindo-se ao facto de estes editores independentes fazerem livros para um nicho de leitores, Cancela conclui assim o seu texto: “A segurança do gueto sustenta projectos e garante o reconhecimento dos iguais, mas pode ser um prenúncio do desaparecimento.” O prenúncio do desaparecimento dá vontade de rir a quem conhecer o panorama actual: onde não só há imensas, como cada vez há mais editoras independentes. E o gueto de que fala o autor não é um gueto construído pelos editores independentes, é um gueto construído pelos grandes grupos e, sobretudo, pela imprensa.

Não são os pequenos editores que fecham as portas a quem vem de fora, são as pessoas de fora que não se interessam em vir espreitar o que se faz. Se os leitores acreditam que tudo o que existe está na Fnac, é porque os leitores são preguiçosos e porque a imprensa não mostra o que há para além disso. Quem centraliza não são os editores independentes, são os grandes que engolem tudo e querem fazer crer que existem sós no mundo.

A maior rede de livrarias nacional chama-se Bertrand. A Bertrand tem também uma editora, que pertence ao grupo Porto Editora, que é o maior grupo editorial português, que é dono também da Wook, a maior livraria online portuguesa. A par da Bertrand existe a Fnac. Se os jornais e a revistas não mostrarem o que há para além disto, a maioria dos leitores não vai descobrir.

Se é verdade que há algumas pessoas esforçadas em mostrar este mundo nos jornais, esse esforço vai pouco além de falar de um ou dois livros por mês, de duas ou três editoras independentes. Era necessário um trabalho muito mais curioso, muito mais jornalístico, que fizesse reportagens sobre livrarias independentes, sobre editoras independentes, paralelamente a esse gesto, louvável, de falar dos livros. Era necessário que uma publicação como o Jornal de Letras se renovasse, abrisse os olhos para o que está a acontecer e falasse sobre isso, em vez de replicar ano após ano os mesmos temas, os mesmos autores, os mesmos editores.

O que H. G. Cancela mostra de si no seu texto é o preconceito típico de quem conhece pouco, de quem sai pouco da sua zona de conforto, de quem critica os pequenos editores por não seguirem o modelo dos grandes, quando é precisamente isso que os torna tão interessantes e lhes permite trazer propostas tão ambiciosas (ao contrário do que Cancela pensa). O que Cancela faz é criticar, como muita gente já fez pela mesma lógica facilitista, as tiragens reduzidas, achando que é um gesto elitista de quem o produz.

Se Cancela se tivesse levantado da sua cadeira e, em vez de escrever aquele texto, fosse a uma livraria independente e gastasse uns euros em livros de editoras independentes e depois, no conforto do seu lar e da sua cadeira, escrevesse sobre essas editoras e esses livros, em vez daquilo que escreveu, estaria a combater a lógica facilitista em que cai. Se recomendasse esses livros a amigos (porque, não tenho a menor dúvida, há muitos livros em editoras independentes que agradarão a Cancela, como a qualquer leitor), se falasse a amigos dessas editoras e das livrarias onde há coisas fabulosas que não existem na Fnac nem na Bertrand, estaria a contribuir para que, um dia, em vez de 300, as editoras independentes façam tiragens de 600.

Enquanto persistir este discurso preguiçoso, que se defende das acusações porque, afinal de contas, estão a falar das editoras independentes, as editoras independentes não crescem. Não querem crescer muito, acredito, mas tudo ajuda. E pior do que o leitor ignorante, que não sabe sequer que existem outras editoras e outras livrarias além dos grandes, é o leitor como Cancela, que sabe que existem e olha para elas com o preconceito sobranceiro de quem olha para os pequeninos, pobrezinhos, remediados, que não são suficientemente empreendedores, que não pensam no crescimento económico, que são elitistas porque não têm livros no Pingo Doce. Assim não vamos lá.

O luxo das elites, que Cancela evoca no título, é um absurdo e uma mentira: porque os livros das editoras independentes não são mais caros do que os dos grandes grupos (são até, muitas vezes, mais baratos), nem são objectos de decoração. São livros para serem lidos por quem os quiser ler. Se Cancela acha que não, se Cancela acha que não tem lugar na elite, é Cancela que se está a colocar numa elite. Uma elite preconceituosa que tem medo que isto de ser independente seja uma doença contagiosa.

3 comentários

  1. Acima de tudo, confunde-se aquilo que é mais importante em ser-se editor: fazer bons livros. Não tem a ver com tiragem ou distribuição, com sucesso de vendas ou outras coisas. Editor é aquele que sabe e faz bons livros. E desses encontramos, e não encontramos, quer em grandes, quer em pequenas editoras.

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  2. A maior cadeia de livrarias, em número de lojas e em volume de vendas, é o Continente.

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