Uma canção mundana

para o João Sobral e para a Joana Valente

Na sexta-feira fui ver uns concertos à Casa dos Amigos do Minho, numa zona chunga perto da zona chique do Intendente. O evento chamava-se Exílio no Minho #2 e o cartaz anunciava concertos de Filipe Sambado, João Nada, Jewels e O Cão da Morte. O que lá me levou foi o João, que é uma pessoa de que gosto muito e com quem estive pouquíssimas vezes, porque ele é do Porto e, em breve, vai ser de Londres (onde já esteve uns meses). E nunca o tinha visto tocar ao vivo. (O João é também o panda gordo, que publicou um livrinho com dois contos meus.)

Também queria ver O Cão da Morte, que tem algumas canções de que gosto muito, e tinha fé de que os restantes membros da pandilha também valessem a pena. E não me enganei. Gostei bastante do concerto d’O Cão da Morte, que foi o último da noite, apesar de ter sido aquele em que a fraca qualidade do sistema de som mais prejudicou a actuação; e da Jewels, que foi a primeira. Pelo meio houve o Sambado, o Nacho (surpresa da noite, que não estava no cartaz), com uma voz peculiar, mas canções interessantes, e o João Nada, que foi o penúltimo.

Perdoem-me os quatro músicos que lá estiveram, mas este texto não é sobre os concertos. É sobre uma canção do João que se chama “Londres 2014”. O título foi ele que me disse, porque na actuação disse apenas algo como: “Esta canção é sobre os meses que vivi em Inglaterra, em 2014”. O meu ouvido ficou, de imediato, à escuta. Isto porque, conhecendo o João, e sabendo que a Joana, a namorada, está em Londres, e gostando tanto deles como gosto (embora, infelizmente, nunca tenha conhecido a Joana pessoalmente), queria ouvir o que tinha ele a dizer sobre essa experiência de viver com a Joana em Londres.

O que aconteceu a seguir foi o seguinte: à medida que os versos se iam sucedendo, os músculos da minha cara, com vontade própria, desenhavam um sorriso imenso e os meus olhos marejavam-se de lágrimas. E fiquei assim durante os cerca de quatro minutos que durou a canção, sem conseguir desviar os olhos do João, como se estivesse hipnotizado, e com aquele sorriso tolo no rosto e a visão turvada pelos olhos húmidos.

No final, além de o abraçar e de lhe dar os parabéns, disse-lhe que tinha gostado muito dessa canção (não tive coragem de lhe contar o que conto agora) e perguntei se estava gravada. Ele disse-me como se chamava e que havia um vídeo no YouTube. A gravação de estúdio sairá mais tarde, quando o João regressar a Londres e fizer a sequela. Desde então, perdi a conta às vezes que já ouvi a música. Mesmo a qualidade manhosa da gravação que há no YouTube, e o engano que o João tem lá pelo meio, não me demove de a ouvir vezes e vezes seguidas.

Tentei perceber porque é que fiquei assim, colado a esta canção. A primeira hipótese justificativa é o facto de a canção ser do João e de ser sobre a sua relação com a Joana e eu gostar muito deles e achar que são um casal amoroso. Mas isto não me chegava. Não era só uma questão de proximidade com o autor e os sujeitos da letra. A canção, em si, é demasiado boa para se reduzir a isso.

Sobre aspectos técnicos da música, não sei dizer nada. Só posso dizer que gosto da guitarra e da cadência dos versos. Portanto, aquilo que me prende mesmo são os versos, a letra que o João escreveu sobre a vida de casal, mas também sobre a sua experiência individual. E aquilo que me faz achar que esta é uma canção maravilhosa, conheça-se ou não o autor, é a forma profundamente honesta e despida de merdas poéticas com que o João conta a história. Os pequenos detalhes do quotidiano em vez das metáforas do amor; a linguagem simples e directa em vez da máscara das palavras bonitas.

Quando eu acordo, tu já foste trabalhar.
E eu fico deitado, sem me querer levantar.
Já sei que demoro mais do que devia demorar.
E se chegar muito atrasado nem sequer te vou contar.

A primeira estrofe mostra logo a forma como se contam aqui os pormenores do quotidiano. Ela sair antes sequer de ele acordar, ele não querer sair da cama, são os pequenos nadas da relação, de uma vida em casal, que parecem não ser matéria para uma canção ou um poema, até alguém mostrar que podem ser. E a confissão final, de que não lhe conta se chegar atrasado (à escola, como se deduzirá depois) é apenas mais uma subtileza da relação: o querer poupar-se a uma possível reprimenda, o não querer desiludir a namorada.

Ao sair da escola trago coisas p’ra mostrar.
Passo no supermercado, o que é que tu queres p’ra jantar?
Já sei que tu nunca sabes, mas eu tento adivinhar.
Se não estiver muito cansado, nem me custa cozinhar.

Na segunda estrofe começam aquilo a que chamarei, porque me apetece, simplicíssimas e maravilhosas declarações de amor. À pergunta de o que é que quer para jantar, a Joana responderá sempre que não sabe. Mas o João tenta adivinhar (e provavelmente acerta algumas vezes e falha muitas, mas é naquela tentativa que está todo o amor). E o pormenor de não se importar de cozinhar se não estiver muito cansado é mais uma subtileza da honestidade desarmante desta canção. Quantas vezes não terá estado demasiado cansado para lhe apetecer cozinhar? Quantas vezes teve de o fazer, contrariado, porque a Joana estava mais cansada? Quantas discussões terão começado por causa disso? Tudo isso englobado naquela expressão simples e directa: se não estiver muito cansado.

O que tu sujas, posso ser eu a limpar.
Não fico zangado se houver louça por lavar.
Já sei que tu queres pôr os Simpsons a dar,
mas eu vou estar ocupado com coisas p’ra desenhar.

A estrofe terceira continua as tais simplicíssimas e maravilhosas declarações de amor. O João não se importa de limpar o que a Joana suja, nem de lavar a louça. E embora não haja essa relação explícita na música, podemos adivinhar que isso é uma espécie de compensação por não ter tanto tempo para ela como gostaria: porque quando a Joana quer ver os Simpsons, o João está ocupado a desenhar. E não é por ser (eventualmente; estou no campo da especulação) uma espécie de compensação que deixa de ser um acto de amor. Ele não limpa por se sentir culpado, nem para pagar o tempo que não pôde passar a ver os Simpsons com a Joana. Ele limpa porque não se importa de limpar o que ela suja, porque gosta de a libertar desse peso, porque sabe que o princípio de “a culpa é tua, resolve tu” não é saudável. Ele limpa, no fundo, porque vivendo juntos são uma espécie de entidade única e não importa quem sujou. Isto é bonito.

Se vou ser artista, não consigo adivinhar.
Tento não estar preocupado com o dinheiro que vou ganhar.
Sei que aí vai ser mais fácil começar a trabalhar,
sem ter de ser explorado antes de alguém me pagar.

Na quarta estrofe entra a experiência mais pessoal e individual. Aqui, embora façamos coisas diferentes e tenhamos objectivos diferentes, revejo-me nas dúvidas do João em relação ao futuro. Para ele, como para mim, o dinheiro — ou melhor: a sua falta — será sempre um problema. Porque para fazer aquilo que queremos fazer e ganhar dinheiro com isso temos, primeiro, de trabalhar muito para atingir um certo patamar ou estatuto ou o que seja. E até lá temos de nos sujeitar a outras coisas, tentando não ser explorados. O João acredita que lá, em Londres, será mais fácil e eu não posso senão desejar com todas as forças que ele tenha razão e que consiga não ser explorado e continuar a fazer as coisas bonitas que faz.

A casa é pequena, a cama é grande p’ra compensar.
Quando não está tudo arrumado, não custa muito arrumar.
Sei que temos pouco espaço, mas isso vai acabar
quando eu tiver um ordenado e nos pudermos mudar.

A última estrofe volta ao plano da relação e da experiência de vida comum em Londres, numa casa pequena, com pouco espaço, mas com um cama grande. Ao menos isso: o refúgio dos amantes, o espaço íntimo, compensava o possível desconforto do resto. E termina a canção com uma simples e desarmante nota de esperança — aliás, mais do que esperança: certeza. Quando ele tiver um ordenado poderão ter uma casa melhor.

Há, no mundo, uma quantidade inacabável de canções sobre o amor. Umas tristes, outras alegres, há para todos os gostos. Mas não me lembro de nenhuma que fosse tão mundana — e digo-o no melhor dos sentidos —, tão cheia de vida real, de experiências pequenas e quotidianas, como esta. E isto resulta, a meu ver, numa canção incrivelmente bela. É, com todo o exagero que esta minha afirmação possa conter, a mais bonita canção de amor que já ouvi.

É óbvio que sabemos muito pouco da vida do João e da Joana. Podemos ouvir esta canção ou outras, podemos ver as fotos que tiram juntos ou um ao outro, mas nunca teremos acesso à sua intimidade (e assim é que deve ser). Podemos, com estas peças, desenhar na nossa cabeça um quadro de perfeição, de uma relação mágica e modelo a seguir, mas o João e a Joana terão, como todos os casais, as suas discussões, desacatos e desentendimentos. A própria canção de que falei, não as referindo, permite adivinhar algumas zangas. Nada disso importa. Importa que o João fez uma canção tão bonita quanto ele e a Joana o são. Fica aqui:

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