O silêncio e um esquilo de peluche

No sábado, depois de uma reunião de trabalho que me ocupou desde as 14:30 até às 19:30, cheguei a casa com vontade de duas coisas: comer, porque não comia desde o almoço; e aproveitar ainda um pouco do sábado, como se fosse um dia de folga como era suposto. O meu irmão já estava cá em casa, onde pernoitaria. Durante a tarde, enquanto eu reunia, ele tinha ido à Cinemateca ver um filme do Resnais que não apreciou particularmente. Como isso me deixou com alguma inveja, fui ver o que é que passava nessa noite — foi um daqueles impulsos que podia perfeitamente não ter acontecido. Quando olhei para o programa já passava das 21h, pelo que o filme que nos permitiria chegar lá com tempo era o das 22h. Letjat Zuravli, ou em português Quando as cegonhas passam, de Mikhail Kalatozov, era o filme que passaria. Não me dizia nada, nem o título nem o realizador. Fui ao IMDb, onde vi que o Kalatozov era o realizador de Soy Cuba, um filme que nunca vi, mas que já há muito quero ver e do qual já vi algumas cenas que me impressionaram. Decidi que iria.

Já devo ter escrito isto algures: acredito que é mais fácil sermos abalados, marcados, tocados por algo quando vamos sem qualquer premeditação, quando vamos quase por acaso ou por impulso, quando não é algo que antecipávamos. Passou menos de uma hora entre o momento de olhar para o programa da Cinemateca e o momento em que, sentado na sala, vejo o filme começar.

Quando as cegonhas passam é um dos melhores e mais bonitos filmes que vi. Estreado em 1957, recebeu a Palma de Ouro em Cannes no ano seguinte. É um filme sobre a guerra sem ser um filme sobre a guerra, porque se centra nas pessoas que ficam, as que sofrem perante a partida para o desconhecido de alguém que lhes é querido, as que sofrem por não receberem notícias dessa pessoa. Centra-se, sobretudo, em Veronika (interpretada por Tatyana Samoylova), namorada de Boris (Aleksey Batalov), que se voluntaria para combater na Segunda Guerra Mundial, e na sua angustiante e sufocante espera por notícias de Boris.



O trabalho de realização de Kalatozov é impressionante. Os travellings, os close-ups do rosto de Veronika, os momentos de frenética alucinação, impressionistas, futuristas, como a cena do bombardeamento na cidade que faz explodir os vidros da casa onde Veronika se encontra ou a cena em que Veronika foge a correr do hospital onde estava a trabalhar como enfermeira, são de génio puro. E quando ao génio do homem por detrás da câmara se junta uma história fortíssima e tão profundamente bela e triste, não se pode classificar o filme senão como obra-prima.

Nos tempos que vivemos, com toda a facilidade de comunicação que temos, em que a toda a hora podemos saber, se quisermos (e muitas vezes mesmo sem querermos, graças às redes sociais), notícias das pessoas que nos são queridas, ou que conhecemos, é quase impossível perceber o que se passaria na cabeça de alguém como aquela Veronika, que vê o seu amado partir para a guerra — como voluntário! —, sem receber dele quaisquer notícias, à medida que os dias se multiplicam em semanas que se multiplicam em meses. Nada a não ser o silêncio e um esquilo de peluche que ele lhe ofereceu no seu aniversário, precisamente no dia em que se foi embora. E nós, pessoas do século XXI, que tantas vezes sofremos porque alguém não nos respondeu ainda a uma mensagem que enviámos há duas horas, ou um e-mail que enviámos há dois dias, nós vemos Veronika sofrer com tanta dignidade, com tão calada ansiedade, que lhe perdoamos todas as faltas.

É um cliché e não muda nada, mas é impossível não pensar, depois de uma história assim, que estamos a dar importância às coisas erradas, que estamos a perder energia com ninharias. São lições que constantemente nos são dadas quando somos confrontados com realidades tão díspares da nossa quanto esta, de uma mulher que vê partir o amante para a guerra. Não podemos senão pensar que, com todas as dificuldades por que possamos passar, estamos ainda tão longe daquele desespero. Podemos falar com as pessoas que nos são queridas, mesmo que se encontrem no outro extremo do mundo, em tempo real. Mas por termos isso, queremos mais. Por termos essa possibilidade, queremos que a outra pessoa nos responda no imediato, quando se calhar ela só o pode fazer dali a umas horas. E quando nos responde no imediato, queremos ouvir a sua voz. E quando lhe telefonamos, queremos ver-lhe o sorriso. E quando ligamos uma webcam, queremos tocar-lhe. E todas estas possibilidades assombrosas acabam por ser pouco, porque afinal nada substitui a presença real e física. E damos por nós num sofrimento exacerbado, como se aquela pessoa cuja voz ouvimos no telemóvel, cujo rosto vemos no computador, cujas palavras nos chegam diariamente por todos estes meios, somo se aquela pessoa tivesse partido para a guerra e não soubéssemos nada dela.

É-me impossível falar mais sobre o filme sem revelar cenas fulcrais e, por isso, prefiro não o fazer. Gostava que alguém, desse lado, ao ler-me sentisse vontade de ver este filme. Mais do que vontade, urgência. É uma obra-prima, com um final maravilho, belíssimo, e repleto de cenas assombrosas, que duvido que alguma vez esqueça, mesmo com a péssima memória que tenho. E a vontade que tenho de o rever é já imensa.

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