Encerrar o dia

São quatro e meia da manhã, agora que começo a escrever este texto. Cheguei a casa há dez minutos, com as pernas doridas e zero por cento de álcool no sangue. A minha noite foi deprimente.

Às nove e meia fui à sessão de encerramento e entrega de prémios do Indie Lisboa. Foram quase duas horas de cerimónia, num fraco espectáculo de amadorismo, exacerbado pela demonstração atroz de falta de profissionalismo dos seus apresentadores Rui Pêgo e Carolina Torres (sobretudo esta última). Há uma diferença grande entre ser independente e jovem e ser amador e desrespeitoso, como foram estes dois apresentadores. E não se percebe porque é que não hão-de fazer legendagem dos textos lidos, porque todos os textos são lidos, em vez de porem pessoas que mal sabem falar inglês a ler a tradução de cada texto, duplicando o tempo da cerimónia.

Depois do penoso espectáculo, seguiu-se a exibição do filme Tom à la ferme de Xavier Dolan. O filme tem um argumento muito bom, completamente desperdiçado pelos maneirismos e tiques do realizador, que transpiram cliché. O casting deixa, também, muito a desejar. Mete dó ver uma ideia com tanto potencial ser executada desta forma.

Era uma da manhã quando saí da Culturgest e me encaminhei para casa. Em casa, estive um bocado no computador, pus a tocar um disco de Songs: Ohia, fumei um cigarro à janela. A noite continuava agradável. A casa vazia. Há já algum tempo que me é difícil encerrar os dias. Como uma criança com medo do escuro, adio sempre o momento de apagar a luz, evito o confronto com os lençóis, a escuridão do quarto, as voltas na cama até chegar o sono. Deixo-me estar no computador a pensar em todas as coisas que podia estar a fazer mas que não consigo: ler, escrever, ver um filme. Limito-me a ouvir música e a recriminar-me por não conseguir fazer nada além daquilo, ouvir música de olhar fixo no ecrã do computador, onde nada acontece.

Hoje nem disso fui capaz. Ainda não eram duas da manhã e o sono não ia chegar tão cedo. O computador tornava-se penoso, escolher música era um martírio porque tudo parecia inapropriado, não tinha ainda sono para ganhar coragem de enfrentar os lençóis. A noite continuava agradável.

Saí sem casaco, só com uma camisa, o tabaco, as chaves e cinco euros no bolso. Vagueei pelo bairro, pelo bairro a seguir, pelo outro a seguir a esse. Andei durante quase três horas. É estranho não haver mais ninguém que goste de passear às três da manhã na Avenida de Roma. Lisboa era um deserto.

Entre o Jardim do Arco do Cego e a Avenida da República, vi uma espanhola baixar as calças enquanto dizia para o acompanhante “ay que no aguanto” e mijar. No McDonald’s do Saldanha, às três e meia, tinha dois árabes à minha frente, a meio da casa dos vintes, com aquela roupa de peça única, barbas compridas, e que falavam entre si num português perfeito e sem qualquer resquício de sotaque. Gastaram quarenta e cinco euros em menus. Um deles tinha um bilhete de um jogo de futebol da liga portuguesa na carteira. Tudo isto me pareceu fascinante, os árabes portugueses, a espanhola que não aguentava, a brasileira atrás de mim que passou o tempo todo a dizer que queria tudo: um répi miu, um bigui teistxi, um bigui mequi, um rópi, um frapé e um esmutxi, etc.

O McDonald’s é o meu Xanax. Vaguear durante horas sozinho pelas ruas desertas na madrugada lisboeta, comer um menu do McDonald’s em andamento, uma coisa de cada vez: a sandes, as batatas, a coca-cola. Acender cigarros uns depois dos outros. Sentir as pernas ficarem pesadas, os músculos retesados, o absurdo de tudo aquilo a conduzir finalmente os passos no sentido de voltar a casa, à escuridão, ao medo de fechar um dia que foi só mais um dia igual a quase todos os últimos. Tentar não pensar no futuro. Pensar no quê, então? Agarrar-me ao quê?

Cheguei a casa, meti-me na cama com o computador. Já trazia este texto na cabeça. Agora que o escrevi, que desculpa arranjarei para não apagar a luz?

5 comentários

  1. Precisava de encontrar mais humanos que tivessem sentido as entranhas remexidas pela apresentação da Carolina Torres e acabei por encontrar o seu texto, com o qual me identifiquei e que me deu prazer ler. Não desejo insónias a ninguém, mas que muitas fossem assim. Que as minhas fossem assim.

    (Espero que não leve a mal ler isto de um estranho, mas, por algum motivo, quis dar a conhecer que as suas palavras tiveram eco em alguém.)

    Boa noite.

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  2. Tenho simpatia por estranhos. Ainda mais por aqueles a quem aquelas coisas incomodam. Um abraço.

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  3. A internet causa isso. Aumenta a capacidade de procrastinação. Às vezes passo o dia no computador lendo coisas e dizendo pra mim mesmo "preciso ler esse livro, preciso ver esse filme", mas nada acontece porque nunca saio do computador. Mas isso só às vezes. Em outras, quando um livro ou filme ou série de TV me pega, eu não faço outra coisa. Passar quatro dias apenas lendo um livro.

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  4. Tu não gastas as palavras e continuas a lavá-las com a tua escrita. um texto tão bem escrito assim é raro de encontrar nos blogs. senti essa deambulação mesmo que eu às 3 da madrugada esteja a dormir profundamente. Luís Filipe.

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