Problemas de coluna

É bastante irónico que ontem à noite eu me tenha visto numa posição ridícula por causa de problemas na coluna e hoje tenha sido despedido por problemas na coluna, mesmo que os da primeira situação sejam reais e os da segunda sejam metafóricos. Fui jogar à bola ontem de manhã e fiquei aflito das costas, no fundo da coluna. À noite tomei um relaxante muscular, apliquei um gel na zona dorida, enchi um saco de água quente e deitei-me de barriga para baixo com o saco no fundo da coluna. Estive assim durante uma hora, tentando mexer no telemóvel só com uma mão e sem poder erguer a cabeça. Foi divertido.

Hoje fui despedido porque cumpria o meu horário de trabalho, isto é, saía entre as 18:01 e as 18:05, quando no contrato dizia que o horário de saída era às 18h, e porque pausava durante 10 minutos de manhã e à tarde para fumar. Esta atitude de rebeldia tornou-se insuportável para os meus patrões que, achando ser incorrigível (tinham razão), optaram por me despedir, ainda que não tivessem qualquer razão de queixa do meu desempenho nas funções para as quais me contrataram: assistente-editorial.

Portanto, por ter problemas na coluna e não a conseguir dobrar à mentalidade medíocre e mesquinha desta gente imbecil, preferem despedir um funcionário competente, que cumpre o seu horário e faz o trabalho que lhe é atribuído, e contratar alguém novo que vão ter de formar e que vai atrasar a produção dos livros em que eu estava a trabalhar. O importante é que seja um escravo que não fume e que fique pelo menos quinze minutos para lá do horário, a jogar solitário ou a ver vídeos de gatinhos no YouTube porque, caramba, fica mal um gajo sair à hora que diz no papel que deve sair. Não é?

Esta gente triste e mesquinha é tão baixa que nem consegue falar comigo pessoalmente. Mandam-me ir à empresa de trabalho temporário através da qual eu tinha contrato para que o rapaz que geria o processo me comunicasse isto. Deram-se ao trabalho de entregar nessa empresa de trabalho temporário um saquinho com os meus pertences que tinham ficado na editora: uma caixa de bolachas, uma garrafa de plástico com um dedo de água e um comprimido para a dor de cabeça que eu tinha pedido a uma colega. Isto porque são tão pequeninos que não iam ser capazes de voltar a olhar para mim. Vão pagar-me o tempo do aviso prévio que tinham de me dar, mas não me querem lá. Pagam-me para não ir trabalhar.

Nestes dois meses em que trabalhei nesta editora, cujo nome não revelo porque seria descer ao nível deles, vi serem despedidas duas ou três pessoas e contratadas outras quatro. A dança continua, é bonito de se ver.

Quando o rapaz da empresa de trabalho temporário me perguntou o que é que eu pensava eu ri-me e disse que achava isto tudo triste e ridículo. Não consigo, ainda, encarar isto sem ser com um sorriso estúpido nos lábios. Ser despedido por cumprir o horário é a coisa mais divertida que já me aconteceu. Ter patrões tão cobardes que não conseguem falar com os seus funcionários e preferem mandar recados por terceiros é divertido e triste e ridículo. O ar naquela cave é podre e fétido. São pessoas muito pequeninas e mesquinhas e tristes as que gerem aquela empresa: uma empresa com história, com uma posição no mercado, com “rigor.” Tudo isto me dá vontade de rir.

A única coisa que pedi ao rapaz da empresa de trabalho temporário foi que tentasse falar com os patrões da editora e que lhes tentasse explicar que a melhor forma de ultrapassar estes problemas é falando com as pessoas em vez de lhes fazer passar recados ridículos. Eu podia ter explicado, por exemplo, que o meu problema real da coluna me obriga a fazer uma pausa e a caminhar uns passos para aliviar a tensão de estar sentado. E que aproveito esse tempo para ir fumar um cigarro porque sou fumador e porque trabalhava numa cave e sabia bem ir à rua e porque, foda-se, um trabalhador tem direito a quinze minutos de pausa por cada quatro horas de trabalho. Podia ter negociado a coisa, podiam dar-me quinze minutos específicos e eu cumpri-los-ia. Podia ter explicado que ficaria até mais tarde sem qualquer problema quando houvesse trabalho urgente e inadiável, mas que não via necessidade de ficar lá para além do horário de trabalho quando tinha terminado uma tarefa às 17:55h.

Provavelmente, não perceberiam nada disto, porque burro velho não aprende línguas. E aquele gente é burra, tem uma mentalidade pequenina e mesquinha. Não é preciso trabalhar bem, como eu trabalhava. É preciso parecer que se trabalha bem, mesmo que não seja verdade. É importante é estar oito horinhas sentadinho em frente ao computador, bater as teclas com vigor, atender telefonemas com simpatiazinha fingida, tratar toda a gente por doutor ou professor ou engenheiro, levar camisinha e blazer e sapatinho bonitinho. Dobrar muito bem a coluna, ficar quinze minutos para lá da hora, ou trinta, e bater as teclas ainda com mais vigor nessa altura, e não fumar. Sobretudo não fumar, porque uma pessoa que tem realmente trabalho não vai fumar, porque está demasiado imersa nesse trabalho, porque se deleita de tal forma com esse trabalho que nem pensa num cigarro, numa pausa, na luz do dia. Puta que os pariu, com todo o respeito.

Posto isto, amigos leitores, se precisarem ou souberem de quem precise de um funcionário competente, cumpridor dos horários, assíduo e que não pede mais do que uma pausazinha para esticar a coluna e fumar um cigarro, a meio da manhã e a meio da tarde, saibam que estou à procura de trabalho.

9 comentários

  1. Venho aqui com frequência e hoje sou brindado com este texto, esta triste notícia. Dizer que em Portugal todos têm medo de sair a horas do seu emprego, é escusado. é um uso entranhado. quase que diria: costume misturado com temor reverencial. Tantas vezes somos 'agrafados' porque estamos a sair a horas. Sim, é melhor manter a aparencia de não cumprimento de horario de trabalho de saída, do que cumpri-lo efetivamente. A meia-hora pós horário é sacramental em todo o setor, público e privado. Um dia as coisas mudarão, mas já não vai haver empregos nessa altura, provavelmente. Melhores dias virão - boa sorte! Luís Filipe.

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  2. Gostava de trab numa editora
    qual é a empresa de recrutamento? Respond çor email sff
    maginabruno@gmail.com
    obrigado

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  3. lol. pá se foi contratado pela empresa de rh e 'normal' q seja a empresa a fazer essas comunicações. Ate n pode queixar-se nt pq lhe pagaram o q deviam. acredito q este post vai dar q falar e rapidamente vai trab numa editora melhor

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  4. as tantas diz q sai as 17h55.. ha pessoas q n perdoam isso, embora concorde q, se ja fez o q tinha a fazer, e bem, pelos vistos, n precisava d ficar ali por ficar. já ouvi falar em editora numa cave, será a mesma?

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  5. E afinal parecendo uma mentira, tudo não passa de uma grande verdade!!

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  6. Pelo menos chegaste a fazer uso do comprimido que te dei?
    Ainda não sabes, e eles nunca saberão, mas foi um favor que te fizeram...

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  7. Era o que eu ia dizer. Já tive o desprazer de trabalhar nessa cave. Onde não aprendi nada. Foi uma experiência longa e vazia. Só percebi o quanto a cave é patética quando fui trabalhar para outra empresa. Esses "engenheiros" não fazem ideia o que é trabalhar... Tiveste sorte gonçalo, eu preferia estar desempregada a voltar a esse sítio.

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