Escrever o quê?

Passa-se o seguinte: ando a ler pouco, muito pouco; não tenho visto filmes, não tenho visto nada. Tenho andado a escrever algumas coisas, mas tão pouco que me envergonho. Escrevi oito versões de um texto que ocupa um quarto de página. Dei voltas e voltas até chegar a qualquer coisa para que pudesse olhar e dizer: isto é bom. Agora acho que é bom. É difícil escrever tão pouco, querer dizer tanta coisa, ou alguma coisa que seja, em tão pouco espaço.

Tenho escrito alguns poemas, mas não sei se gosto deles. Achei que ia fazer um livro que seria a sequela daquele que acabei há pouco tempo. Não só porque ficaram coisas por dizer no outro — e não quero mexer-lhe mais a não ser em questões de pormenor — mas porque me agrada a ideia de fazer uma sequela para um livro de poesia. Talvez seja até uma prequela, mas isso é irrelevante para o caso. O que se passa é que eu não escrevi poesia durante muitos anos e de repente senti vontade de o fazer e dei por mim a gostar do que fazia. O livro terminado, com todas as irregularidades e falhas que tem e que já me apontaram, parece-me bom, parece-me a melhor poesia que já escrevi. E este novo que estou a iniciar já não está a provocar-me a mesma sensação. É como se, por um breve período de alguns meses, eu tivesse sido bafejado por um qualquer deus dos poetas que não bafeja assim tanto e já se cansou de mim. Vou insistir só porque sim, só porque ainda tenho coisas para dizer, mas tenho sérias dúvidas de que isto chegue a algum lado.

Tenho ouvido muita música, mas não sei escrever sobre música. E por isso não tenho nada para dizer neste blogue, porque só sei escrever sobre filmes e livros. Talvez devesse escrever sobre música da mesma forma que escrevo sobre filmes e sobre livros, indo buscar o que naquelas músicas me faz pensar na vida, na minha e na dos outros. Talvez devesse desligar-me dos estereótipos de quem escreve sobre música como, no fundo, me desligo dos estereótipos de quem escreve sobre livros e filmes. E não o fiz porque não goste de ler certas pessoas que escrevem dessa forma, mas porque não sei escrever dessa forma. As coisas tocam-me ou não me tocam e o resto é muito difícil de dizer. Por isso não me foi difícil escrever sobre o livro do Agassi, porque me tocou a história ainda que a escrita deixasse muito a desejar. Isto não tem nada a ver com prazer. Teria mais prazer, certamente, a ler um livro bem escrito com o qual me identificasse menos, mas ser-me-ia mais difícil escrever sobre ele.

O que se passa é o seguinte: não tenho nada para escrever aqui ou não tenho nada que possa escrever aqui. E isso aborrece-me porque me apetece escrever aqui, especificamente aqui e não noutro sítio qualquer. Não havendo nada, sai isto. Isto é triste e por isso peço desculpa.

1 comentário