Engolir em seco

Ontem revi Amour, de Michael Haneke, na RTP1. Há qualquer coisa de fascinante nisto de ver um filme na televisão, como se fosse uma actividade que não pertencesse já ao nosso tempo, porque toda a gente faz download dos filmes e vê-os no computador, ou vê-os em DVD ou, mesmo quando passam na TV, prefere gravá-los para ver mais tarde, numa decisão individual, não sujeitada aos horários da televisão, nem que seja para poderem saltar os intervalos. Sou culpado de todos os crimes atrás descritos e não apenas desses: sou o tipo estranho que vê mais filmes em salas de cinema do que em casa. E, no entanto, aquela experiência de ver um filme na televisão, no momento em que ele está realmente a passar, é uma experiência bonita.

Liguei a televisão, sem som, e pus um disco a tocar. Apaguei as luzes, enchi um copo de vinho tinto, fumei cigarros. Antes tinha avisado uma pessoa: vai passar este filme, tens de ver. Vou ver, respondeu-me. Não sei se viu ou não, mas isto é belo: termos que estar àquela hora, 23:27h (a precisão da RTP é, também ela, fascinante), em frente à televisão, duas pessoas distantes a verem o filme em simultâneo, as mesmas imagens, os mesmos sons, as pausas nos mesmos momentos. Quando chegou o intervalo, eu queria um intervalo. Abri nova garrafa, porque a outra já tinha terminado (já estava no fim quando comecei!), enchi o copo, comi qualquer coisa rápida, fui à casa-de-banho, vesti o pijama e voltei a instalar-me no sofá para o filme que retomaria assim que me sentei. Isto, caramba, é bonito.

O filme também o é, ainda que bonito seja um adjectivo que lhe fica estranho, como uma peça de roupa que assenta melhor no cabide do que no corpo. É um filme duro, pesado, carregado, repleto de silêncios que são nós na garganta. Os rostos de Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant preenchem estes silêncios de tanta coisa indizível, incomunicável, que no entanto está a ser comunicada em cada ruga, em cada ligeiro arregalar dos olhos, em cada ténue tremer dos lábios, que quase não sentimos a ausência de banda-sonora. Se a memória não me falha, tudo é sonoplastia: as músicas que ouvimos são as músicas que tocam no leitor de CD ou no piano da casa do casal Anne e Georges. Seria tão fácil provocar as lágrimas do espectador com uma música triste empregada no momento certo, com o arrastar de certas cenas em vez de outras, mas Haneke escolhe levar o filme para outro lado, um lado brutal e duro, que nos agride, que nos diz: a velhice é isto, é isto ter a morte à porta, é isto cuidar de uma pessoa que não sabe cuidar de si. E nós engolimos em seco. Aquilo é terrível e belo. Amor e cansaço. Amor. Está no título.



Quando Georges dá uma chapada a Anne, no momento mais forte do filme, está a dar uma chapada a si próprio. E o amor é isto: é perceber imediatamente que a chapada que deste a alguém é uma chapada que dás a ti próprio. Porque quebraste, cedeste ao egoísmo do sofrimento que aquela pessoa te provoca, quando o sofrimento que ela te provoca é provocado pelo sofrimento por que ela está a passar. Percebendo-o logo, a outra pessoa sabe-o e não precisa de te dar uma chapada de volta, porque sabe que aquela te doeu tanto a ti como a ela. Georges pede desculpa e é desculpado, porque Anne sabe que não há pesos a ajustar na balança. A chapada doeu aos dois e abriu os olhos dos dois. É o amor. Tal como é o amor que leva Georges a colocar a almofada sobre o rosto de Anne. Georges pede desculpa muitas vezes, Anne agradece muitas vezes muitas coisas, e é isso o amor.

É preciso muito estofo para ajudar alguém que precisa de muita ajuda. Não basta amar essa pessoa incondicionalmente: é preciso amar ajudar essa pessoa, é preciso abdicar de muita coisa pelo bem estar da outra pessoa, é preciso perceber que quando aquela pessoa que amamos faz um disparate — cospe a comida, cai da cama, tenta suicidar-se —, não está a fazer um disparate para nos magoar: está a fazer um disparate porque está a sofrer. O amor é isto: estar pronto para tudo, mesmo tudo, para aliviar o sofrimento da pessoa que amamos. O tudo a que temos de estar dispostos pode acabar por ser um esforço mínimo em momentos de aflição, ou um esforço máximo prolongado no tempo. Não interessa. É preciso é estar pronto para tal.

Devíamos aspirar todos a isto.

7 comentários

  1. Este é o meu tipo de cinema. O realista, o que magoa, o que faz temer a vida. Aquele que parece acontecer aqui, que tem os nossos sons, os nossos rostos, os nossos hábitos, tão básicos como um robe deixado ao acaso numa cadeira ao lado da cama. Porque é que gostamos de algo tão doloroso que será, muito provavelmente, a nossa realidade? O que nos poderá fascinar nisto? Que bom era gostar do cinema fantástico...

    Patrícia M. (de Mouro, não de Marcinha!)

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  2. Que boa surpresa, Patrícia :) Subscrevo tudo o que dizes. O que dói, o que faz pensar, o que custa e faz sofrer é o que nos torna mais fortes.

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  3. E ao mesmo tempo mais sensíveis e tolerantes. Que assim seja, para sabermos lidar com o que nos espera com os nossos e merecermos mais tarde (ou mais cedo) a preocupação de alguém.

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  4. se os torna mais fortes vocês morrem de quê?

    faz pensar no amor patológico?

    que de resto é a natureza do dito cujo

    pronto pra tudo pai morre queimado a tentar safar os filhos

    pronto pra nada pai leva 7 anos de cadeia por amar demais os filhos

    pai que corta a família à catanada está mais pronto pra tudo que pai que os atira para um poço?

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  5. olha o Borges safou-se disso, basta atirares-te aqui na linha do sul sueste que nã chegas a velho
    muito bom eleitor fazia isso nos anos 80 e 90
    depois começou a haver menos gente a andar de comboio e os suicidas demandaram as estradas

    pré-ocupação é dar-lhes uma manta e fazê-lo à Dakota

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  6. Gabo-te a paciência :) Obrigado por leres e comentares(?).

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  7. Dos meus filmes preferidos. Este texto (crítica?) conseguiu dizer tudo aquilo que senti ao ver o filme.
    Obrigada.

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