Qualquer coisa que a realidade nos nega

Ontem, num acto que podia apelidar de irreflectido não fosse o facto de ter sido reflectido tendo em conta as suas consequências, decidi que ia ver o Synecdoche, New York, de Charlie Kaufman, protagonizado pelo Philip Seymour Hoffman. Podia apelidar o acto de irreflectido porque eram três da manhã e hoje tinha (tive) de acordar às oito, mas tenho esta inclinação de carácter que me faz valorizar certas coisas acima de outras. Por exemplo, tudo o que me dê gozo está acima do sono. Tudo o que me faça feliz está acima do trabalho. Tudo o que é pessoal está acima do que é profissional. Podia estar cronicamente desempregado, mas não, obviamente que tudo isto é mantido com um ar de graça e uma ligeireza a disfarçar os bocejos nas oito horas de jorna diária. Afinal de contas, ninguém tem nada que ver com o que faço dos meus tempos livres.

Portanto, eram três e meia da manhã quando comecei a ver Synecdoche, New York. Charlie Kaufman, apesar de se estrear aqui na realização (o filme é de 2008), trazia já na bagagem os créditos de argumentista de filmes como Being John Malkovich, Adaptation. e Eternal Sunshine of the Spotless Mind. E sim, Synecdoche é tão bizarro quanto se podia esperar. E é um filme brilhante, que suplanta facilmente aqueles que escreveu para outros, excepto Eternal Sunshine, que tem o melhor Jim Carrey de sempre, a melhor Kirsten Dunst e a melhor Kate Winslet.

Philip Seymou Hoffman é Caden Cotard, dramaturgo, casado, com uma filha. Tudo começa como num filme “normal”, até tudo começar a desmoronar-se em episódios meio surrealistas que são, afinal e sempre, a vida normal. Tudo começa com um cano a rebentar na casa-da-banho, uma torneira projectada contra a fronte de Caden e a descoberta das doenças. Depois vem uma MacArthur Fellowship, uma bolsa que lhe dá o desafogo financeiro para levar a cabo o seu projecto de conceber uma peça original, pessoal e íntima. Por esta altura já a mulher desapareceu com a filha.

Por esta altura já o espectador se perdeu no tempo, porque o filme é isso: a perda gradual da noção de tempo, a perda gradual da separação entre o real e o ficcional, que é na verdade o ficcional e o meta-ficcional, a vida de Caden e a peça de Caden, actores que interpretam Caden e as pessoas que rodeiam Caden e as relações que se estabelecem entre personagens reais e ficcionais, ou ficcionais e meta-ficcionais. E se tudo isto pode parece um exercício pós-modernista de masturbação atrás da câmara, na prática as coisas funcionam, porque o filme não é isso. O filme é como a peça de Caden, é sobre a morte, mas também é sobre a vida, sobre as relações, sobre a banalidade, sobre o dia a dia, sobre as pessoas extraordinárias atormentadas e sobre as pessoas comuns atormentadas.

À medida que a vida pessoal de Caden se destrói em proporções inimagináveis, possíveis apenas através do humor trágico surrealista de Charlie Kaufman, a peça que constrói num gigantesco armazém abandonado vai incorporando esta vida. Há réplicas das casas de Caden, da casa da ex-mulher, de todos os lugares que lhe são caros, e os episódios começam a confundir-se no espectador e em Caden. Perdemos a noção do plano em que a acção decorre: é a vida de Caden ou é a peça que encena a vida de Caden? E até que ponto é que a peça que encena a vida de Caden não é a vida de Caden?

Charlie Kaufman é isto e às vezes Charlie Kaufman é demasiado isto. Mas em Synecdoche, como em Eternal Sunshine, isto é um mecanismo que suporta uma ideia brilhante, explorada de forma brilhante. É um filme sobre a expectativa e a realidade, a incapacidade de acção contra a capacidade da fantasia; a escolha de um lado, o da fantasia, onde apesar de destruídos, desprovidos de humanidade, iludidos, podemos ser felizes e viver qualquer coisa que a realidade nos nega irredutivelmente. É um filme sobre a vertiginosa queda, psicológica e física, sobre o desespero cego e inconformado face a coisas que deviam ter corrido bem, que ainda podiam correr bem se houvesse uma porta entreaberta que o permitisse, mas que correm mal porque esbarramos contra um muro maior do que nós.

É um filme tremendamente injusto para a personagem de Philip Seymour Hoffman, que encaixa maravilhosamente neste papel. Fica-me na memória uma conversa de Caden com a sua assistente, por quem se apaixona. Ela está casada, ele aparece à porta de casa dela. Mostra-se preocupado com ela e ela diz-lhe que não se preocupe: “I’m ok.” Caden responde, desesperado: “I don’t want you to be ok.” E às vezes a vida é isto, ser mesquinho ao ponto de não sermos capazes de desejar o bem de uma pessoa, se o bem dessa pessoa não nos incluir a nós. Quando devia.


4 comentários

  1. O Synecdoche é daqueles filmes que qualquer um deve evitar escrever. Devia apenas dizer-se "Há um filme chamado Synecdoche, New York".

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  2. Tendo a concordar. Em minha defesa só posso argumentar que escrevi mais sobre mim do que sobre o filme.

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  3. Coincidência brutal: estava re-assistindo esse filme no sábado, dia anterior da notícia da morte do PSH. Tudo é mesmo muito estranho...

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