Maior do que o ecrã gigante

Há pessoas que não deviam morrer, apesar de poderem morrer, por tudo o que nos deixam. É uma espécie de egoísmo querermos que estejam sempre vivos, para que nos tragam arrebatamento e magia, para que os admiremos e os julguemos seres superiores, inalcançáveis, porque fazem coisas que nós, comuns mortais, somos incapazes de fazer. Quando partem cedo demais, ainda que o cedo demais seja uma noção abstracta e que só faz sentido para quem fica e vê partir, a injustiça e a incompreensão são mais profundos, tudo dói mais porque queríamos mais, queremos sempre mais.

Philip Seymour Hoffman era uma pessoa normal e não era uma pessoa normal, porque ninguém é uma pessoa normal. Philip Seymour Hoffman morreu, porque os grandes também morrem, como as pessoas normais, e os génios também morrem e morrem sempre cedo demais. Os génios também vão ao McDonald’s e ao Starbucks, dormem de boca aberta e babam a almofada, usam chinelos, lavam os dentes, sentem-se tristes e sozinhos. Os génios também têm problemas como as pessoas normais, têm doenças, têm acidentes, têm dívidas, têm vícios.

A nós custa-nos vê-lo partir porque o admirávamos, viamo-lo tomar conta do ecrã gigante com a facilidade de quem é mais gigante que o ecrã, mas vamos sentir a falta dele? Vamos ver um filme e pensar que aquele papel devia ser dele? Os filhos do Philip Seymour Hoffman podem sentir isso. É um cliché, claro, mas é verdade, como quase todos os clichés. Nós? Nós teremos outros actores e teremos os filmes que Philip Seymour Hoffman nos deixou. E não podemos senão celebrar esse legado, o legado de um actor enorme, brilhante, que era tão humano como nós, tão vulnerável como nós, tão fraco como os mais fracos de nós, tão humano que sucumbiu com uma seringa no braço. A mim apetece-me celebrá-lo com um sorriso, porque não mudou nada. Há muitas formas de partir e morrer é só mais uma delas.



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