Cabeça falante

Nos últimos tempos, tenho ouvido de várias pessoas comentários acerca da minha incapacidade para expressar emoções. Algumas dessas pessoas acreditam mesmo que não sinto emoções, que tudo para mim são experiências superficiais, vividas com a ligeireza de quem não quer ou não ousa ou não consegue mergulhar. Há quem mo diga a sério, com o tom de quem nos diz que temos um problema que devíamos tratar, e há quem mo diga entre gargalhadas, como quem não quer que mudemos porque assim, estranhos, bizarros, podemos continuar a servir-lhes de divertimento e, ao mesmo tempo, de prova viva daquilo que não querem ser.

Nos últimos tempos, também, algumas pessoas disseram-me que eu tinha um estilo próprio quando escrevia sobre livros: um estilo emocional, pessoal. Ou seja, eu não escreveria sobre livros com base em conceitos teóricos abstractos, nem empregaria à minha voz a voz majestática da Crítica. Seria a minha voz, apenas, individual, e os meus textos basear-se-iam nas emoções pessoais que eu senti ao ler os livros. Eu concordei, concordo, acho que não podia ser uma descrição mais acertada daquilo que faço. Isso terá os seus méritos e os seus deméritos, mas é aquilo que sei fazer. Terá começado inconscientemente para depois se tornar algo que sai naturalmente e já com a consciência disso. Porque aquilo que mais me interessa nos livros, nos filmes, na música, na arte, é a forma como eu os vivo, as emoções que me provocam.

Talvez a minha constante vontade de rever filmes, de reler livros, de ouvir músicas em loop durante horas se deva a isso, ao lugar de conforto, àquele sítio onde já sei que há emoção para mim. Isso é mais confortável do que arriscar o desconhecido. Ontem conversava com uma pessoa sobre esta questão das releituras e revisionamentos. Dizia-me ela que nunca revia filmes, simplesmente porque tinha ainda muitos para ver. Se é verdade que compreendo perfeitamente este pensamento, e respeito-o, também é verdade que há muito mais risco envolvido nessa posição. Talvez me falte vontade de arriscar. Disse-me ela que rever um filme lhe parecia uma perda de tempo, por ter muitos por ver. Eu consigo inverter o pensamento: para quê ver um filme que nunca vi, se há a possibilidade de no fim achar que foi uma perda de tempo? Porque não antes rever um filme que me tenha marcado, que me tenha tocado, que me garanta o retorno emocional que o desconhecido não garante?

Isto não é uma posição extremista, claro. Há uma lista imensa de filmes que quero ver e nunca vi. E não vou trocá-los por filmes que já vi só porque sim. Às vezes também é preciso isto: tentar, tentar, tentar, até encontrar mais uma pérola que nos preencha por dentro. E é por serem momentos raros, pelo menos para mim, que se tornam coisas tão importantes.

Como já devem ter percebido, se chegaram até aqui, este texto é muito pessoal. Provavelmente o mais pessoal que alguma vez aqui coloquei. É deliberadamente que tento esconder as minhas emoções quando escrevo “em público”, mas tenho plena consciência de que há muito de mim nos meus textos sobre livros ou filmes. Ou seja, escondo-me de um lado e revelo-me do outro. No fundo, está tudo lá. É uma manta demasiado pequena, só me cobre parcialmente. E se a puxo de um lado, revela-me o outro. Tenho puxado sempre a manta de forma a tapar a minha vida pessoal, hoje não o farei.

E a culpa de tudo isto é daquela pessoa que não revê filmes. Falou-me numa curta de que tinha gostado muito. Eu queria ir para a cama e pensei que uma curta de catorze minutos era uma coisa boa para se ver antes de ir dormir. Gadające głowy (que se traduzirá para algo como Cabeças falantes) é uma pequena maravilha de 14 minutos, do realizador polaco Krzysztof Kieślowski (célebre pela trilogia das Trois Couleurs: Bleu, Blanc e Rouge). É e não é um bom filme para ver antes de dormir. Para alguém como eu, que vive por dentro, ser apanhado desta forma, ser abanado tão violentamente e tantas vezes num filme de catorze minutos, para o qual não ia preparado, foi ao mesmo tempo a melhor e a pior coisa do mundo. Foi a melhor coisa do mundo porque é um filme daqueles que nos põe constantemente um sorriso na cara, que nos deixa comovidos com as pessoas, que nos reforça a fé na humanidade, que nos dá pérolas atrás de pérolas de coisas a guardar para sempre. Foi a pior coisa do mundo porque me agrediu, porque me revi em tantas daquelas pessoas, porque tocou em tantos pontos que são chamas acesas dentro de mim, focos de conflito que se arrastam pelos anos e cuja resolução nunca parece estar próxima.

O filme consiste em pessoas, começando num bebé e terminando numa senhora centenária, a responderem a três perguntas. Em que ano nasceste; quem és; o que é que queres da vida, o que é importante para ti? E o filme atingiu-me com uma violência imensa não apenas pelas respostas das pessoas, mas pela honestidade que colocam nessas respostas. Não vou entrar num questionamento em relação à montagem e às escolhas e ao maniqueísmo. O filme é o que lá está, catorze minutos que continuam a ecoar dentro de mim, que continuarão a ecoar dentro de mim por muito tempo. Uma vez, numa entrevista de emprego, perguntaram-me qual era a coisa que mais me irritava. Eu respondi: as pessoas. A seguir perguntaram qual era a coisa que mais me emocionava ou fascinava. Eu respondi: as pessoas. Este filme reforça muito a minha resposta à segunda pergunta. Podia comentar o filme, as respostas, as subtilezas da linguagem corporal, mas acho que este filme merece mais de mim. E não vejo outra forma de ficar em paz comigo, depois de o ver, que não seja responder às perguntas.



Nasci em 1986.

Não sei quem sou. Sei que me chamo Gonçalo. Gonçalo Mira. Mas o meu nome não é aquilo que sou. Ninguém é o seu nome. Sei que algumas pessoas que eu nem sei que existem reconhecem o meu nome, porque já me leram, provavelmente, ou porque já alguém lhes falou de mim. Não sei o que penso disso. Sou um rapaz — e a dificuldade que tenho em dizer “sou um homem” já diz tanto — tímido, introvertido, mas sou capaz de me libertar, de me entregar com paixão a uma conversa. Nunca percebi quando, nunca percebi o que é que motiva essa libertação. Sei que os temas são importantes. É-me difícil entrar em conversas em cujos temas não me sinto à vontade. É-me difícil entrar em conversas onde há demasiadas vozes. É-me difícil falar com certas pessoas. É-me fácil falar com outras. Sou aquilo a que os americanos chamam self-conscious. As emoções que as pessoas não vêem em mim estão a rebentar cá dentro. O meu cérebro não pára. Estou constantemente consciente de mim, dos meus gestos, do som da minha voz, da dicção esquisita que empreguei a certa palavra. E recrimino-me. Estou constantemente a pensar no que estarão os outros a pensar acerca de mim. É um pesadelo. Estou a escrever este texto e ninguém me está a ver, está tudo bem. Mas quando o partilhar, não sei o que vai acontecer. Em tempos achei que tinha uma máscara para ocultar o meu verdadeiro eu. Hoje não sei se aquilo que eu julgava ser uma máscara não é afinal o meu verdadeiro eu, e aquilo que eu julgava estar por detrás da máscara não sou eu, mas aquilo que eu gostava de ser. Não sei porque é que gostava de ser diferente. Talvez por acreditar que sofresse menos, que vivesse melhor comigo e com os outros. Talvez porque isso me tirasse um certo peso. Sou egoísta, não no sentido de me preocupar demasiado comigo ou pouco com os outros. Sou egoísta no sentido de não conseguir viver sem ser dentro de mim. Sou escritor? Sei que não sou a minha profissão, nem nunca fui, nem nunca serei. Sou leitor, sou cinéfilo, sou melómano. Sou escritor. Sou um idiota, sou infantil, tenho um sentido de humor que nem toda a gente percebe, nem toda a gente aprecia. Rio-me com poucas coisas que não sejam pessoas reais à minha frente. Fico triste com facilidade, caio em depressão com facilidade, não equaciono procurar ajuda para isso. Quero muito e não quero nada ir a um psicólogo. Acho que nunca irei. Acho-me uma pessoa fascinante, porque me interessam este tipo de pessoas. Acho que ninguém tem motivos para me achar fascinante. Sou aborrecido. Sou chato.

Aquilo que eu quero da vida é ter pessoas à minha volta com quem possa estar em paz, com quem consiga falar e ouvir e partilhar emoções. Quero ser melhor pessoa. Quero aprofundar o meu interesse pela religião e pelo espiritual sem me preocupar com o que os outros possam pensar disso. Quero gostar mais de mim, mas nunca tanto como gosto dos outros. Quero ser mais honesto com as pessoas e dizer-lhes aquilo que sinto sem medo de as magoar, sem medo de me magoar. Quero ser capaz de dizer o que sinto sem merdas. Coisas tão simples como: gosto de conversar contigo, tenho saudades tuas, és importante para mim, disseste uma coisa que me magoou, gostava de estar contigo mais vezes, hoje não me apetece. Gostava que as minhas emoções não existissem só dentro de mim. Gostava de conseguir não estar sempre consciente de mim próprio e que isso acontecesse de forma natural. Não quero ter ataques de pânico e de ansiedade. Quero escrever e ser publicado e ser lido. Quero que isso me permita viver confortável. Quero ser capaz de dar importância às coisas importantes e não me deixar afectar por coisas de nada. Quero uma revolução, mas uma revolução a sério, que instaure qualquer coisa que não seja outro partido, e necessariamente melhor. Quero a morte do capitalismo, a morte do poder, quero tudo e não quero nada. Quero suicidar-me. Mas só daqui a muitos anos. Quero ter uma vida que me faça desistir desta ideia.

O mais importante para mim são as pessoas, a honestidade, os valores, a liberdade. As pessoas porque, apesar da dificuldade que tenho em relacionar-me, são aquilo de que mais preciso. E gosto genuinamente de pessoas, comovo-me com as pessoas, emociono-me com as pessoas. Acredito que as pessoas ainda podem fazer tanta coisa, podem ser tão melhores do que são. A honestidade porque é o único caminho em que acredito para a felicidade e o mais fácil. Difícil é entrar em pleno nesse caminho, de tal forma que não se saia dele nunca. Os valores porque são aquilo que nos mantém humanos. Se perdemos os valores pelos quais nos regemos, perdemos tudo. A liberdade porque não quero saber o quanto ela é importante — isto é, não quero perdê-la, eu que sempre a tive, e aí aperceber-me de que preciso muito dela. Sou consciente disso: a liberdade, ainda que vergada aos tempos nojentos que correm, é um bem essencial. O mais importante para mim é a gratidão e o perdão: saber dizer obrigado e desculpa, agir sempre sem esperar um obrigado das pessoas, perdoar sempre, tudo, mesmo que demore muito. Dizer obrigado sem o esperar dos outros. Perdoar sempre quem nos magoa e quem não nos perdoa.

Nasci em 1986. Não sei o que sou, quem sou. Aquilo que quero agora, aquilo que é importante agora, é que não me venham com paternalismos. Isto não é uma chamada de atenção. Isto é uma coisa que eu tinha de escrever e tinha de partilhar. Obrigado e perdoem-me.

5 comentários

  1. Que bonito, rapaz. Não lembro como cá cheguei, mas fico grato que tenha chegado. Sou de 1987 e vejo-me muito a mim nestes parágrafos. Perdoa a intromissão. Obrigado.

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  2. atingiste o belo. estou a ler o teu blogue pela primeira vez. too much emotion logo no ultimo texto sobre synedoche. new york. e a seguir leio este. ainda por cima estou a ouvir led zeppelin - going to california. sinto-me a mergulhar. Luís Filipe.

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  3. Obrigado, Luís Filipe. Espero que o mergulho seja bom. E que o mar esteja calmo!

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  4. O mar está calmo, dá para boiar e tudo! E ainda por cima vou ver o synecdoche pela primeria vez no fim-de-semana - não há coincidências na minha vida no que tange a filmes e discos. obrigado! L Filipe.

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