Demasiados filmes

Há coisa de um mês e pouco comecei a ver, pela primeira vez, e para gáudio de todos os meus amigos que muito me tentaram convencer a isso, The Wire, série de televisão maior do que a televisão. A um ritmo moderado, que as obrigações profissionais e pessoais a isso obrigam, tenho perdido várias noites de sono para poder matar o vício. Vou começar hoje a quarta temporada, de cinco, e conto escrever mais sobre o assunto quando concluir esta demanda.

Nos últimos dias, não sem um sentimento permanente de quem-me-dera-estar-a-ver-The-Wire, vi também bastantes filmes. Hoje vi A Crónica dos Bons Malandros, de Fernando Lopes, que é um filme falhado, como explica a folha da Cinemateca, mas que tem um certo encanto, um certo ambiente, não apenas físico mas também “espiritual” (para utilizar um dado que me intrigou nos créditos finais, onde vinha referido um “Consultor Espiritual”), que nos faz sentir bem a ver aquilo. Mas é um filme falhado não apenas pelos motivos enunciados pelo próprio realizador — a falta de dinheiro para fazer o filme que queria fazer —, mas também porque a estrutura é muito fraca. O filme assenta num único acontecimento, o assalto à Gulbenkian, e o resto é a apresentação das personagens, ora em grupo, ora à vez. Tanto quanto sei, não tendo lido o livro que o filme adapta, de Mário Zambujal, a estrutura é a mesma do romance. Mas se no romance isso pode funcionar, no filme revela-se uma estrutura fraca, porque o assalto é-nos apresentado ao início e passamos o filme a esperar esse momento. E enquanto esperamos confrontados com a apresentação de todas as personagens do bando, que não são histórias particularmente empolgantes, antes pequenas biografias, espremidas ao máximo em termos narrativos e arrastadas ao máximo em termos fílmicos. É pouco, mas não deixa de ser um filme, como disse atrás, que nos encanta de uma certa forma.

Ontem vi um filme de Manoel de Oliveira, Benilde ou a Virgem-Mãe, que adapta uma peça de José Régio, sendo rigorosamente fiel ao texto original, isto é, os diálogos são exactamente aqueles que constam do texto de Régio. É, como não podia deixar de ser, um filme teatral, mas não tão teatral como outros filmes de Oliveira, que me tinham incomodado por essa faceta. Talvez, também, em Benilde a coisa funcione tão bem por o texto ser tão bom. É a história de uma rapariga inocente e que vivia isolada em casa, numa aldeia, que aparece grávida. Ela está convencida que o filho é uma dádiva de Deus e garante não ter tido, nunca, um homem. Mas à sua volta há um turbilhão de dúvidas e tomadas de posição e confrontos e manifestações de apoio por parte das pessoas que a rodeiam: a emprega, o padre, o médico, o primo com quem ia casa, a tia e o pai. É no crescendo da tensão que resulta deste confronto de ideias e posições que reside toda a força do filme. A personagem do primo e noive está particularmente bem conseguida, enquanto ser composto de camadas sobrepostas de sentimentos e atitudes antagónicas. É muito bom e devolveu-me a esperança em Manoel de Oliveira (perdoem-me os defensores, que acharão ultrajante esta minha falta de fé em Oliveira; e perdoem-me os detractores que não tanto ganharam um inimigo, mas sim perderam um aliado).

Em sessões caseiras, vi dois filmes de Truffaut, da saga das aventuras de Antoine Doinel, alter-ego cinematográfico do realizador. Não vi, ainda, o mais famoso destes filmes, e que inicia as aventuras de Doinel, Les quatre cents coups, porque se proporcionou ver os dois que vi, que são o terceiro e o quarto dos cinco que compõem esta saga, respectivamente Les baisers volés e Domicile conjugal. São ambos belíssimos filmes, divertidos, descomprometidos, em modo de navegação à deriva que parece ir sempre para o sítio certo. Têm aquela ligeireza que encontramos em vários filmes da Nouvelle Vague, como os mais descomprometidos e menos intelectualizados de Godard, mas carrega bastante mais nos momentos cómicos do que o faz Godard. E se com isso perde um certo pendor poético que encontramos nesse Godard, ganha noutros pontos e talvez resulte num todo mais uno, na medida em que equilibra muito bem a comédia com a poesia.



Mas o filme mais marcante que vi nestes dias foi Love Streams, de John Cassavetes. Nunca tinha visto nada de Cassavetes, mas tinha-me sido recomendado, há pouquíssimo tempo, A woman under the influence. A recomendação veio apetrechada do epíteto “melhor filme de sempre” e por em ter em excelente conta a pessoa que mo recomendou a curiosidade ficou aguçada. Deu-se o caso de haver o DVD de Love Streams à mão numa sessão caseira e a cavalo dado não se olha o dente. A experiência não podia ter corrido melhor.

Love Streams é um filme impossível de resumir. Conjuga personagens decadentes e complexas com uma realização irrepreensível, daquelas em cujos pormenores geniais reparamos. E são geniais precisamente por serem pormenores, por serem doseados, por não ser uma inundação de estilo mas sim uma seguríssima mão guiando a câmara ao serviço da narrativa, das personagens, dos ambientes. Mete divórcios, péssima parentalidade, amor fraterno, paixão carnal do género usar-e-deitar-fora e momentos do mais delicioso absurdo, ridículo, cómico versão vergonha alheia. E tudo isto é feito em crescendo: o filme vai-se tornando mais complexo e mais bizarro à medida que vamos avançando na narrativa. É uma experiência, no sentido em que não nos limitamos a ver o filme — há qualquer coisa de mais activo, como se o experienciássemos. Se entrei neste filme como quem procura um cartão de visita de Cassavetes, uma orientação para as expectativas que devia levar para A woman under the influence, esta apresentação não podia ter corrido melhor e a vontade de ver A woman under the influence não podia ter ficado mais acentuada.

E depois de tanta cinefilia (nem falei em Stranger than paradise, que revi na Cinemateca, precisamente por ter sido uma segunda vez) — eu próprio estou um bocado enojado com tanto pretensiosismo —, vou para a cama começar a quarta temporada de The Wire. E pensar que podia ter visto um episódio e meio no tempo que desperdicei a escrever isto...

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