A vida depois da vida de Adèle

Não li nada sobre La vie d’Adèle, de Abdellatif Kechiche, antes de o ir ver ao cinema. Não sei se quero ler alguma coisa sobre ele, agora que já o vi. Ou melhor, sei que quero, mas também sei que talvez não deva. Já fiz pesquisas, já li títulos, já passei os olhos por artigos e entrevistas e declarações e não sei se me apetece chafurdar no que fica depois de um filme tão intenso. Tão intenso que deixa marcas no espectador, como deixa marcas nas actrizes, como deixa marcas no realizador.

Não sei se quero ler sobre o filme porque toda a gente fala sobre o sexo e La vie d’Adèle é muito mais do que as três ou quatro cenas de sexo que tem, que talvez ocupem uns dez minutos, num filme que tem três horas. Não sei se quero ler porque já passei os olhos por uma declaração de Julie Maroh, a autora da novela gráfica em que Kechiche se baseou livremente (o livro chama-se Le bleu est une couleur chaude), em que esta dizia que as cenas de sexo a chocaram, porque não é assim que as lésbicas fazem sexo. Comentava que as pessoas se riam no cinema durante estas cenas. Riam-se porque, sendo homossexuais, achavam aquilo ridículo porque não é assim que se faz, ou riam-se porque, sendo heterossexuais, achavam aquele sexo lésbico esquisito e ridículo. Eu não me ri durante estas cenas. Primeiro, porque não sei o que são as maneiras certas e erradas de fazer sexo. O sexo heterossexual, quando aparece no cinema, não é sempre igual. Não há uma maneira certa de fazer a coisa. Pode ser mais intenso, mais parado, mais apaixonado, mais desligado, mais violento, mais carinhoso, e pode combinar várias destas características e muitas outras. Eu, enquanto espectador, às vezes reconheço aquela maneira de fazer as coisas, às vezes acho-a estranha. Não a acho irrealista, porque sei que não há formas irrealistas de o fazer. Há formas, infinitas talvez. Aquilo que eu vejo pode não me parecer apelativo e no entanto sê-lo para outras pessoas. Pode até ser apelativo para outras pessoas, quando para as personagens não é. Ora, em La vie d’Adèle, as cenas de sexo têm uma mulher experiente, Emma, e uma mulher inexperiente, Adèle. Uma mulher que está a descobrir a sua identidade, a sua sexualidade. Porque raio é que o sexo retratado tinha de ser mais bem retratado? A própria Emma dá-lhe uma nota de catorze em vinte, pelo desempenho, e diz-lhe que tem de praticar mais. Quem é Julie Maroh para dizer que aquelas cenas de sexo estão mal feitas? Este tipo de comentário incomoda-me. Percebo que se questione a pertinência das cenas, a duração, a abordagem estética, mas não percebo que utilizem o argumento de que o sexo não se faz assim.

Depois desta irritação provocada por um texto que li na diagonal, estou realmente reticente em ler mais coisas sobre o filme. Porque já percebi que se disse muita coisa. Toda a gente disse coisas. O realizador disse coisas, as actrizes disseram coisas, a autora do livro disse coisas, os críticos devem ter dito imensas coisas, e eu quero é guardar a impressão profunda que o filme deixou em mim e não vasculhar nos escombros que deixou naqueles que estiveram mais ligados a ele. Talvez eu esteja a ser egoísta, talvez devesse preocupar-me em saber como estão Abdellatif Kechiche, Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos, depois da experiência intensa por que passaram. Talvez. Mas estou demasiado ocupado ainda a digerir a experiência intensa por que passei através deles. E não quero que textos e entrevistas e opiniões me roubem isso.

La vie d’Adèle é um daqueles choques eléctricos dos quais saímos com plena noção de termos passado por uma experiência transformadora. Foi a mesma sensação que senti depois de ver Le mépris ou depois de ler Franny and Zooey. É a sensação de certeza absoluta de que aquele objecto, aquele filme, aquele livro, aquela música, aquele quadro, entrou directamente pelas veias, misturou-se com o sangue, e faz parte do nosso ADN. É a certeza absoluta de que aquele filme me vai acompanhar para o resto da vida. E vou revê-lo vezes sem conta e vou  recomendá-lo a muitas pessoas e ficar feliz quando gostarem muito, confuso quando não gostarem nada e destroçado quando lhes passar ao lado.




Vou ver Adèle Exarchopoulos noutros filmes e ver sempre a Adèle deste filme, como a Scarlett Johansson será sempre a Charlotte de Lost in Translation. Como Louis Garrel e Romain Duris serão sempre os irmãos de Dans Paris. Porque não é só o filme que fica, são as personagens, são as cenas. Eu tenho péssima memória narrativa, o que é óptimo para rever filmes: há sempre a magia da primeira vez, mesmo que apenas em algumas cenas. Há sempre imensas coisas de que me esqueço. Mas nestes casos, nestes objectos artísticos que guardo religiosamente como se fossem os meus livros sagrados aos quais recorro em tempos de aflição, há imensas cenas, imagens, flashes que tenho sempre na memória. E a verdade é que já me apetece rever La vie d’Adèle, como se tivesse em mim uma necessidade de guardar mais coisas, mais pormenores, mais imagens, mais subtilezas.

Subtilezas talvez seja a palavra-chave. É o que este filme é para mim, uma série de subtilezas, de pedaços de humanidade, de vislumbres de Adèle-Adèle, a Adèle que não é a personagem Adèle mas a actriz Adèle. Momentos que são tão perfeitos, tão imperfeitos, tão reais, que a paixão platónica que imediatamente se acendeu em mim parece transcender os limites da paixão platónica que senti também com a Scarlett Johansson, com a Maria Schell (em Le notti bianche) ou com o Louis Garrel. É como se Adèle me parecesse mais palpável, mais alcançável, menos protegida atrás da tela.

O que guardo deste filme são os grandes e lindos dentes de coelho de Adèle; o sorriso parolo de Adèle, com os cantos da boca a curvarem demasiado para cima, como se fossem independentes do resto dos lábios; as maçãs do rosto de Adèle coradas pelo embaraço, pelo esforço afogueado, pelo prazer sumptuoso; o cabelo solto de Adèle, volumosa juba dourada como a savana sob o sol africano; o cabelo apanhado ao alto de Adèle, fonte a disparar em repuxo irregular, ponta para aqui, ponta ali; as mãos de Adèle a retocar este repuxo, a instaurar-lhe uma desordem ainda mais exuberante, a roubar-me ainda mais o fôlego; o corpo de Adèle em movimentos sensuais ao som da música, a cabeça pendendo ligeiramente na certeza da falsa inocência; o olhar perdido de Adèle enquanto o seu corpo ondula, a boca semiaberta, os lábios a mexerem-se ao ritmo das palavras cantadas, os lábios a transformarem-se naquele sorriso tosco de quem se descobre observada na sua dança privada, interior, íntima; as lágrimas de Adèle a escorrerem-lhe pelo rosto em desespero, a juntarem-se ao ranho que desce lentamente até aos lábios, a boca cheia de saliva e de lágrimas e de ranho e os fios de baba visíveis enquanto fala e se cospe na ânsia de dizer coisas debaixo do pranto. Isto é o que me deu Adèle, La vie d’Adèle, o melhor filme que vi em muitos anos. Tudo o resto que se diga é ruído.

9 comentários

  1. não vi o filme, apesar de toda comoção a respeito de quão interessante possa parecer.
    parabéns pelo blog. tudo bastante interessante e inspirador.

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  2. Obrigado, Antônio. É bom saber que há pessoas desse lado.

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  3. O melhor comentário que li até ao momento sobre este filme! E sim, já muita coisa foi escrita... Obrigada pelo bom momento de leitura e reflexão.

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  4. Eu é que agradeço o claramente exagerado elogio.

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  5. Epá! Parabéns, li isto por acaso e fiquei fã... tens toda a razão, vi o filme da mesma forma. E achei perfeita a forma como falaste das cenas de sexo (des)adequadas... E acrescento, para quem diz que é pornografia (como já vi pessoas a dizerem), que há no filme momentos mais explícitos que o sexo. Quando assistimos à ruptura de um casal, quando a Adèle chora (literalmente!) baba e ranho... não é isso ainda mais íntimo que o sexo? Não é isso ainda mais explícito...?

    Parabéns Gonçalo! Fiquei teu fã!

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  6. Que belo comentário. Exprimes tudo o que o filme transmite e provoca nas pessoas com palavras que eu não conseguia usar. Revivi um pouco do filme com este texto. Não acrescentava uma vírgula. Se calhar acrescentava uma nota musical. O momento da Adèle na sua festa de anos, ao som de um remix de Lykke Li. Um dos momentos mais fortes do filme sem um forte motivo. Talvez seja a felicidade da Adèle naquele momento, expressa com a sua forma única de simplicidade e sensualidade, que ainda me faz ir ao youtube e rever essa cena. Parabéns pelo comentário!

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  7. Obrigado, Tiago :) É bom ganhar novos leitores (e prefiro que sejas meu leitor do que meu fã).

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  8. Obrigado, Zé. A nota musical está lá. Está lá um link disfarçado, na palavra "dança", que remete para essa cena do filme :)

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  9. Então não há mesmo mais nada a acrescentar! :)

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