O rasto virtual e o cansaço das redes sociais

Tanto quanto me é possível saber pelo rasto não apagado, o meu primeiro post num blogue foi feito no dia 8 de Outubro de 2004. Pode ser que tenha sido antes disso: não reconheço naquele post um post inaugural e a minha compulsão para ir apagando partes do rasto pode estar a trair esta afirmação. Seja como for, terá sido nesse ano. Ou seja, daqui a um ano estarei a celebrar dez anos de blogosfera.

Nestes, ainda, nove anos de blogosfera, tive mais, muito mais, do que nove blogues. Tenho a certeza de que foram mais de vinte, mas acredito que ultrapasse mesmo a marca dos trinta. Alguns duraram mais do que outros, naturalmente. Muito poucos se aguentaram um ano ou mais. Todos aqueles em que eu era o único autor foram apagados, facto com o qual convivo com ambiguidade: por um lado, agrada-me que as deambulações da juventude não fiquem para a posteridade; por outro, não deixo de ter alguma pena de não poder voltar a ler as idiotices que escrevia. Nem que fosse para me sentir melhor com o meu eu actual.

De todos os blogues que tive, exceptuando a Orgia Literária que é um projecto colectivo e que cedo deixou de ser encarado como um blogue, este onde agora estou a escrever é o mais duradouro. Foi difícil, muito difícil, chegar aqui: a um blogue pessoal com o qual me sinto bem, a que nunca desejei pôr termo, nem mesmo depois de vários meses de ausência. Os meus blogues tendiam a ser orientados, não tanto por um tema (mas também; tive dois blogues efémeros sobre cinema) mas por um tipo de escrita ou abordagem ou estética. Tinham regras e quando me fartava dessas regras a única solução era apagar o blogue e começar um novo. E tinham títulos muito pensados, durante dias às vezes, dos quais me cansava. E o endereço tinha de corresponder ao título. E estes elementos deixavam de fazer sentido.

Quando criei este blogue, o endereço era outro. Naturalmente, cansei-me. Mas em vez de o apagar, decidi mudar-lhe o endereço, o aspecto e o título. No fundo, fazer um novo blogue, mas mantendo os posts que já tinha (terei, eventualmente, apagado um ou outro). E quando para o endereço escolhi o meu nome estava, sem grande consciência disso, a encontrar a fórmula para a estabilidade. Acabaram-se os grandes dramas. Sim, o blogue mudou muitas vezes de aspecto e de título, mas o endereço manteve-se e o espírito também. Podia, finalmente, ter um blogue novo sempre que quisesse, sem deixar de ter sempre o mesmo blogue.

Esta semana, quando decidi não sei porquê que voltaria a postar aqui com mais regularidade (até ver; não assumo compromissos), fiz uma limpeza à casa como ainda não tinha feito. Ajustei pequenas coisas no aspecto, quase nada, e fiz uma razia aos posts, apagando mais de metade (ficaram 61 e eram mais de 130). Os posts que apaguei eram imagens de filmes, capas de livros ou discos, etc. Os posts de texto mantiveram-se quase todos. Talvez eu esteja a criar uma regra — nada de imagens largadas sem contexto —, talvez me venha a arrepender disso, mas estou quase certo que não. Sempre utilizei os blogues para escrever. E se é verdade que as redes sociais mataram muitos blogues, isso acontece porque as pessoas partilhavam coisas breves, músicas, imagens, ligações e coisas efémeras afins, que passaram a partilhar nas redes sociais. Como não é isso que me interessa, os blogues continuam a ser muito da minha estima. Interessa-me escrever e divagar sem saber para onde o texto me leva, parágrafo após parágrafo. Interessa-me ser surpreendido sempre que descubro que alguém desse lado ainda me lê.

Talvez esta minha vontade de voltar a postar com mais regularidade se relacione com um certo cansaço das redes sociais. São muito úteis para umas coisas, partilham-se nelas coisas interessantes, ligações valiosas a que talvez nunca chegássemos, mas são cada vez mais impessoais. Para cada partilha realmente interessante, há dezenas e dezenas de outras que são irrelevantes — e estou a falar do meu feed de Facebook, onde já bloqueei imensas pessoas para as quais já não tinha esperança. Estou a dizer que, de entre as pessoas que ainda sigo no Facebook, há uma partilha por dia, talvez, que me agrade. E há muitas, mesmo muitas, destas pessoas que sigo que gostaria muito mais de seguir num blogue pessoal. E são tão poucas as que hoje em dia os têm.

1 comentário

  1. Já sofri desse mal com os blogs. Matei-os a todos e partilho esse sentimento do "deixa-lá-aquilo-longe-para-não-me-envergonhar" vs "agora-podia-rir-um-pouco-de-mim-própria".
    Quanto ao facebook é bom saber que não me bloqueaste na tua feed, ou pelo menos os post dos The National :P
    Beijinho*

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