Escrever este post é não estar a escrever a história de que este post fala

Apetece-me escrever e não me apetece escrever. Tenho uma história na cabeça que começou a desenhar-se de forma completamente aleatória, motivada por um divertimento absurdo. A personagem principal é um escritor cujo nome é um anagrama do meu. O título da história é um anagrama do nome do escritor e não sei ainda o que será. São duas palavras, uma expressão espanhola, que poderá ser uma livraria, um motel, uma estrada, qualquer local onde a acção levará o escritor e onde algo de importante acontecerá. E tudo isto começou só com isto: um nome para a personagem principal e um título para a história. É, provavelmente, a forma mais idiota de começar algo. E os anagramas são, provavelmente, o recurso mais descarado de narcisismo. Mas parte da piada é essa: meter tantos anagramas quanto possível para aí concentrar todo o egocentrismo e retirá-lo de tudo o resto.

A primeira tentativa de começar qualquer coisa com estes dois elementos, título e nome da personagem principal, foi rejeitada ao fim de duas páginas. A segunda está a avançar muito lentamente. São ainda pouquíssimas páginas e são raríssimas as vezes que lhe acrescento algo. O problema da regularidade é algo com que terei de lidar, porque não consigo ser regular. Podia dizer que vou mudar, como já tentei dizer algumas vezes, mas sei que não vai acontecer, por isso mais vale estar preparado para isto. Claro que isto exigirá um trabalho imenso se algum dia chegar ao fim da história, porque a escrever dois parágrafos por semana, quando muito, é inevitável que a homogeneidade da obra seja uma miragem. Esse, ainda assim, é a menor das minhas inquietações. Aflige-me mais, muito mais, neste momento, a dificuldade com que me sai a escrita de ficção, contrariamente à de não ficção. Este post, por exemplo, em que não estou a empregar qualquer atenção especial para que saia especialmente bem escrito, estará mais bem escrito e sai-me com muito mais facilidade do que um par de frases na história que tenho em mãos. Talvez não me devesse preocupar tanto com isso enquanto escrevo, talvez devesse guardar essa preocupação para o fim, mas há uma distância enorme entre aquilo que gosto de ler e aquilo que consigo escrever. É como se, ligando o interruptor da ficção, o cérebro perdesse capacidades de escrita que noutras ocasiões demonstra possuir.

O problema principal é o narrador. A minha aversão ao papel de narrador é tão grande, que não consigo evitar escrever como se fosse uma câmara de filmar. Descrevo o que vejo (os cenários e pessoas com pouco detalhe; as acções com demasiado), o que ouço, o que as personagens vêem e ouvem, e não consigo avançar para além disto. Falta-me dar o salto para qualquer coisa mais. Sou um narrador com medo de ouvir os pensamentos das personagens. Sou um péssimo narrador. É triste admiti-lo, mas esta é a realidade. E um péssimo narrador é um péssimo escritor e estou condenado. Isto, ainda assim, e ao contrário da regularidade, creio conseguir contrariar.

Não vou contar nada da história, não vou revelar o título nem o nome da personagem. Assim, este post fica só como mais um relato abstracto sobre a escrita e não me culpabilizarei tanto quando admitir que foi abandonado. Como tantos outros. Posso apenas dizer que o início da história é inspirado numa fotografia do Faulkner, de quem o meu escritor é uma espécie de sósia.

Tendo escrito pouquíssima ficção, quando é isso que mais quero fazer (tenho cinco, apenas cinco, contos de que não me envergonho muito), não sei se é a melhor ideia do mundo meter-me a escrever esta história, porque é uma história longa que está a engolir imensas ideias que tinha. Ideias para contos estão a ser chamadas para esta história e outras ideias novas estão a surgir. Tenho demasiadas ideias para colocar numa história, quando mal me safo a fazer um conto. E já sei que quanto mais informação sobre a acção sei, mais difícil me é chegar até lá. Mais difícil e penosa se torna a tarefa da escrita. Uma voz dentro da minha cabeça pergunta: “Para que é que estás a escrever isto se já sabes o que vai acontecer?” E esta voz, no fundo, sou eu. Porque realmente não percebo o porquê de escrever, se já sei o que vai acontecer. Para mostrar aos outros e outros gostarem muito da história? E porque raio hei-de eu ter de me esmifrar em sofrimento para dar uma alegria aos outros? É complicado. E no entanto quero escrever esta história. Mesmo sabendo que não sou capaz. Afinal, o Lobo Antunes disse algures que só se pode começar a escrever um romance quando se tem a certeza de não se ser capaz de o fazer. Estou apto, então. E romance foi a palavra que evitei até aqui, porque me assusta para caraças. Estou a escrever um romance? Não vai acabar bem.

2 comentários

  1. Muito obrigado por este post.
    É definitivamente algo que rola na minha cabeça.
    Posso republicá-lo no meu site?
    É um site onde posto textos de não ficção, crônicas, argumentos, pensamentos, resenhas, ensaios, artigos. Chama-se ORNITORRINCO. Sou brasileiro, do Rio de Janeiro.
    Olha o site aqui: www.ornitorrinco.net.br

    De qualquer modo, muito obrigado por essa reflexão.

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  2. Obrigado, Gabriel. Sim, desde que a minha autoria fique salvaguardada, não há problema em publicar este texto.

    Abraço!

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