Uma piada que não está a ter piada

Hoje comecei a ler A Piada Infinita, de David Foster Wallace. Comecei ontem à noite, mas tecnicamente já era hoje porque já passava da meia-noite. E comecei com alguma solenidade, como quem se prepara para um evento importante da sua vida. Estava disposto a desfrutar da viagem.

Os tempos da Internet, das compras online, dos downloads legais e ilegais, permitem coisas que antigamente seriam se não impensáveis, pelo menos muito difíceis. Permitem-me, por exemplo, estar a ler a tradução portuguesa (de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes) tendo ao lado a edição original, Infinite Jest, e a tradução espanhola, La Broma Infinita (traduzida por Marcelo Covián).

Os problemas começaram cedo. Ao contrário da Isabel Lucas, que acha que “seria mesquinho apontar defeitos” à tradução, eu acho que seria mesquinho fazer vista grossa porque, coitadinhos, tiveram tanto trabalho e não merecem que isso seja criticado. Eu acho mesquinho dar palmadinhas nas costas por trabalhos que não estão bem feitos, só porque eram difíceis à partida.

Eu respeito o Salvato, reconheço todo o mérito do seu trabalho de tradutor (não digo o mesmo do Vasco porque não conheço o seu trabalho anterior). Se não fosse assim, não o teria escolhido para ser um dos entrevistados no meu artigo sobre tradutores no Ípsilon. De modo que sinto que seria mesquinho não apontar defeitos neste trabalho, quando depois de ter lido menos de 10 páginas já me sinto inclinado a desistir da tradução e ler o original.

A primeira coisa que me faz confusão nas traduções portuguesas do inglês, não nesta em específico, é a necessidade de transformar as aspas em travessões. Isto irrita-me. Há autores portugueses que também usam aspas para diálogo. Para quê mudar isso? O Paulo Faria, outro dos tradutores que entrevistei, não coloca travessões nos diálogos do Cormac McCarthy, porque ele não os usa. Também não usa aspas. Ora, essa ausência de marca de diálogo seria bem mais difícil de acompanhar pelo leitor do que as aspas. Então porque é que o Paulo Faria deixou assim? Para respeitar o estilo do autor. Do mesmo modo, o Foster Wallace opta por usar uma só aspa, ‘assim’, em vez das aspas duplas. Foi uma opção dele. Porque é que temos de mudar isso para travessão?

Isto ganha contornos ainda piores quando depois não se pode usar o travessão como sinal de interrupção no discurso. Uma frase interrompida a meio, tem de terminar com um travessão. E isso é diferente das reticências, que dão a entender uma suspensão menos abrupta. Usando as aspas para marcar diálogo, Foster Wallace pode usar o travessão para marcar interrupções desse diálogo. Usando o travessão a marcar o diálogo, os tradutores viram-se obrigados a substituir os travessões de suspensão por aspas.

E pior ainda. Há parágrafos no original que começam com discurso indirecto e, no mesmo parágrafo, abre-se aspas para começar o discurso directo. Na tradução portuguesa (e na espanhola também), nestas situações dá-se sempre parágrafo quando começa o diálogo. Isto, por muitas convenções e regras da língua portuguesa que estejam a ser respeitadas, é adulterar o texto original acrescentando-lhe parágrafos e não é, para mim, de todo aceitável. E também é um problema transversal às traduções do inglês. Tinha acontecido o mesmo com Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, que acabei de ler recentemente e também é traduzido do inglês (e eu pude comparar com o inglês).

Estas coisas, ainda que me façam comichão, são questões que enquanto leitor estou disposto a ignorar quando decido ler uma tradução do inglês (mas é por estas questões que raramente leio traduções do inglês; prefiro quase sempre ler o original). O que não posso ignorar, e o motivo real deste texto, são erros de tradução.

No quarto parágrafo da página 12 da edição portuguesa diz-se: «O treinador, com um gesto que não é nem britânico nem australiano, comunica (...)»

Torci o nariz. Como serão gestos britânicos ou australianos? Fui ver o original: «The coach, in a slight accent neither British nor Australian, is telling (...)»

Ora, “slight accent” é, obviamente, um “ligeiro sotaque”. Faz sentido que um sotaque possa ser britânico ou australiano. Nem sequer é uma palavra difícil de traduzir. O erro é injustificado.

Na página 13, terceiro parágrafo, o deão das Admissões está a falar de incongruências nas notas de Hal Incandenza. E conclui assim: «(...) no ano passado, sim, caiu razoavelmente, mas com isto quero dizer que «caiu» espantosamente depois de três anos de francamente incrível.»

Não percebi. Fiquei confuso. Fui ver o original: «(...) this past year, yes, has fallen off a bit, but by the word I mean “fallen off” to outstanding from three previous years of frankly incredible.»

Aqui, os tradutores alteram completamente o sentido da frase. Quando dizem que as notas caíram espantosamente, o leitor assume uma queda abrupta. Ou seja, se nos últimos três anos tinham sido incríveis e agora caíram espantosamente, a diferença deve ser abismal. Devem ter caído para valores medíocres. Mas não. O que o original diz é que caíram “to outstanding” de “frankly incredible.” Isto é, os resultados que tinham sido francamente incríveis nos últimos três anos, tinham caído agora para (apenas) espantosos. Logo, é uma queda ligeira. Nunca uma queda espantosa. Isto é um erro de tradução grave que muda o sentido do que é dito.

Na página 17, quarto parágrafo, o deão está a dizer que precisam de se certificar dos resultados escolares de Hal porque não querem admiti-lo na universidade só pelos seus resultados desportivos. Isso seria usá-lo. E levanta uma questão que alguém lhe poderia apontar:

(...) vós estais a usar um rapaz apenas pelas suas qualidades físicas, um rapaz tão tímido e retraído que é incapaz de falar por si mesmo, um jerico com notas de doutor e uma candidatura comprada numa loja qualquer?

Eu, ignorante que sou, não conhecia a palavra jerico. Pensei: que raio é um jerico? Fui ver o original:

(...) here you are using a boy for just his body, a boy so shy and withdrawn he won’t speak up for himself, a jock with doctored marks and a store-bought application.

Torci o nariz. “Jock” é uma expressão popular, quase calão, para os tipos atléticos das escolas e universidades, normalmente parvalhões e populares entre as miúdas. “Jerico” pareceu-me uma palavra vinda de um contexto completamente oposto, uma palavra que tem pouco ou nenhum uso corrente, ao contrário do original inglês. Mas, claro, fui ver ao dicionário, não fosse eu estar a ser injusto e esta ser a palavra perfeita para traduzir “jock.” Jerico é um asno, burro, jumento. Não tem qualquer conotação com desporto. A tradução não faz sentido. Uma vez mais, dá um significado diferente ao que a personagem diz.

Quando Hal responde “Não sou um jerico” está apenas a defender-se da acusação de ser burro. Mas o que ele diz no original é “I am not just a jock.” Ou seja, ele admite que tem qualquer coisa de “jock,” mas é apenas isso. Porque um tipo pode ser desportista e popular entre as miúdas e ter boas notas e ser inteligente. Tendo alterado por completo o sentido da palavra, os tradutores viram-se obrigados a suprimir aquele “just.” Não podiam dizer “Não sou um jerico” porque isso implicava que além de burro, também fosse inteligente, o que é um pouco contraditório.

Tendo lido menos de dez páginas do livro (o texto propriamente dito só começa na página 9) e tendo já encontrado tantos problemas (e estou a deixar de lado questões mesquinhas como a oralidade que se perde em muito do discurso directo), a minha vontade é desistir já, antes de me chatear mais, e ler no original, fazendo o processo inverso: ver como traduziram passagens que me pareçam mais difíceis de compreender. Mas como não quero ser injusto, vou dar mais uma oportunidade por mais umas quantas páginas. O que não podia era deixar de manifestar o meu desagrado com este tipo de erros. Não está na minha natureza promover a mediocridade. E quando leio e calo, sinto que estou a promover. Há quem ache que sou polémico; eu acho que sou honesto. E isso é mais do que se pode dizer da maioria das pessoas.

6 comentários

  1. Por aqui tem-se as mesmas dificuldades.

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  2. Belo post. Faz falta este tipo de leitura crítica na blogosfera (e na imprensa) portuguesa.

    Rejeito apenas a tua primeira parte, no que diz respeito ao uso de aspas e travessões e à abertura de parágrafos em discurso direto. A tradição anglo-saxónica é uma, a francesa é outra, a portuguesa é outra ainda. A tradução e a revisão implicam adaptação a códigos tipográficos e ortográficos diferentes.

    Há exceções, claro. É preciso, contudo, que o original desrepeite a convenção ortotipográfica na própria língua de partida para que a versão portuguesa também deva traduzir esse desrespeito. (Por isso mesmo, como bem indicas, o Paulo Faria não os usa nas suas traduções do Cormac McCarthy, pelo que a sua tradução reproduz esse desrespeito da convenção original.) Não é, de todo, como pretendes, adulterar o texto original: trata-se, na verdade, de planos distintos. E as traduções inglesas, de resto, fazem o mesmo: traduzem para a sua convenção ortotipográfica as convenções aplicadas nos originais de outras línguas. Basta ver o que fez o Eça na sua tradução de As Minas de Salomão, de Haggard (descontadas as devidas diferenças, poucas, da convenção do século XIX para a convenção atual).

    Quanto a tudo o resto, as tuas observações espelham bem a ausência de revisão em Portugal. E são gritantes.

    Abraço, de um leitor teu,

    Nuno

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  3. Eu percebo isso, Nuno. Mas não concordo. Não acho que se deva fazer adaptação. Aliás, como eu digo, o próprio Wallace desrespeita a norma anglo-saxónica, usando a aspa simples em vez de dupla, guardando a dupla para citações dentro de discurso directo.

    O problema de defender que só não devemos impor a nossa norma aos autores que desrespeitam a sua própria norma é que depois temos de decidir que tipo de desrespeito é que justifica a sua manutenção na tradução. O Wallace desrespeitava, mas parece que não o suficiente para isso ser mantido na tradução portuguesa. E é por isso que eu defendo que se deixe a norma do país de origem. Tal como defendo que um autor português que use travessões deva ver mantidos os travessões se for traduzido para inglês.

    Mas se fosse só uma questão de pontuação, eu engolia. A abertura de parágrafos é o que realmente acho inadmissível. Para mim, adultera o texto original. Porque um texto é não só as suas palavras. Os parágrafos são como são porque o autor assim o decide. A própria mancha, muitas vezes, é deliberada. São questões pequenas e, quiçá, desinteressantes, mas que para mim são importantes.

    A título de curiosidade: eu, quando escrevo ficção, uso aspas ou nada, precisamente porque acho que o travessão é um sinal muito útil para outras coisas (apartes e interrupções abruptas do discurso) e quero que as pessoas reparem nele. E para repararem nele, convém que o texto não esteja cheio de travessões.

    Abraço e obrigado por leres e comentares!

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  4. Só um pormenor: as aspas simples são usadas no Reino Unido e as duplas nos EUA. Assim, neste caso, as aspas simples não serão uma questão do país da edição? (Isto porque as editoras britânicas adaptam este tipo de convenções quando editam autores norte-americanos.)

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  5. Não consigo responder à questão das aspas. Tentei ler a obra no original inglês, há uns anos, mas não consegui continuar. Não consegui sequer perceber se as plicas (ou aspas simples) eram apenas má edição ou se eram intencionais; provavelmente teria de analisar o resto da obra dele para chegar a alguma conclusão (ou não, não sei). Quanto à abertura de parágrafos em discurso direto, continuo a discordar: a regra em inglês é clara (e é uma), a regra em português é clara (e é outra).

    Repara, dou um exemplo do que pretendo dizer. Imagina que o Wallace ou outro autor de língua inglesa abria parágrafo em discurso direto, de cada vez que muda o interlocutor, isto é, respeitaria a regra portuguesa. O leitor anglo-saxónico estranharia esta utilização. Na tradução portuguesa, o tradutor respeitaria, como indicas, o autor. Logo, o leitor português não teria a mesma experiência do leitor original. Para a ter, a tradução teria, por exemplo, de unir parágrafos nessas ocasiões, procurando violar a convenção da língua de chegada (tal como o autor violou a convenção na sua língua de origem), de modo a traduzir essa estranheza para a outra língua.

    (Lembro-me há uns meses de ler um post num blogue norte-americano sobre uma tradução para inglês que manteve os travessões da língua de partida, e se tornou um livro ilegível. Gostaria de me lembrar desse exemplo, mas não me recordo mesmo do título.)

    Quanto à utilização do travessão na tua ficção: claro, és livre de o fazer. Contudo, não te esqueças de que é um uso teu, um uso idiossincrático. Os apartes e as interrupções abruptas do discurso são marcadas tradicionalmente em português com reticências; o uso do travessão é relativamente recente e chegou-nos por via anglo-saxónica. Ah!, e isto não é uma crítica nem nada que se pareça. Era o que faltava: quem condena empréstimos e influências, que atire o seu primeiro Garrett.

    E não tens de agradecer. É raro comentar na blogosfera, porque sou metido comigo mesmo. Por isso e porque é muito difícil hoje em dia manter uma discussão em que duas pessoas discordem, sem que deixem de discutir e de se respeitar. Ou manter uma discussão em que mudo de ideias porque os argumentos do outro me convencem, sem que seja apelidado de vira-casacas (era o que faltava não poder ser convencido). Felizmente discordamos. E felizmente continuamos por aqui.

    Abraço, de um leitor assíduo e silencioso,

    Nuno

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  6. Cuidado que este senhor STM, é intocável!

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