Em versão realista

Mo Yan, o escritor chinês que ganhou este ano o Prémio Nobel da Literatura, é frequentemente comparado a García Márquez. A comparação — ao contrário da outra, absurda, com Kafka — não é descabida. A família e a sua relação com a comunidade, a aldeia, são o seu território por excelência e não é difícil imaginar Dalan, a aldeia de Peito Grande, Ancas Largas, como uma espécie de Macondo oriental. Mo Yan é uma espécie de García Márquez oriental, sim. Mas em versão realista. Senão vejamos: Lingdi, a Terceira Irmã, enlouquecida pela detenção do homem que amava — Han Passarinheiro, um exímio caçador de aves —, sobe ao telhado da casa e começa a debicar o próprio corpo, alisando as penas imaginárias. Quando um aldeão sobe para a tirar de lá, ela abre os braços, como asas, para voar. E onde García Márquez poderia pôr a rapariga a elevar-se nos céus, eis o que escreve Mo Yan:

Ela pôs-se de pé num salto e abriu os braços para se elevar nos ares, mas caiu do telhado e estatelou-se nos ladrilhos do carreiro com um baque seco. De um golpe fundo na cabeça, grande como um alperce, o sangue jorrou às golfadas, e a Terceira Irmã perdeu a consciência.

2 comentários

  1. Olha, fiquei curiosa.
    Faltava qualquer coisa para que me quedasse.

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  2. Vale a pena, Lia. Mas podes esperar pelo meu texto no Ípsilon para te convencer definitivamente :)

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