Bailado lento

Há umas semanas, quando comecei a ler coisas sobre o último filme de Béla Tarr, O Cavalo de Turim, que foi o primeiro do realizador húngaro a ter estreia comercial em Portugal, fiquei com vontade de descobrir o cinema deste autor. Num gesto, improvável na minha pessoa, de sensatez, não fui a correr para o cinema largar cinco euros à espera da experiência recompensadora (o facto de não estar a viver em Lisboa também deve ter influenciado a decisão). Decidi começar devagar, na pacatez barata do cinema ilegal em casa.

O primeiro que vi foi o imediatamente anterior ao que agora estreou cá: O Homem de Londres. A imagem de marca são os longuíssimos planos-sequência, facto que não só não me atemorizava, como terá sido dos factores determinantes no despertar da minha curiosidade pelo trabalho deste realizador. O preto e branco é belíssimo, os movimentos de câmara irrepreensíveis. Toda a cena inicial, que decorre num navio atracado ao cais, é por nós observada através das janelas da torre de vigia do cais, como se fôssemos nós o vigilante, que descobrimos depois ser a personagem principal. Quando, ao fim de largos minutos, nos apercebemos que a câmara nunca saiu dali, daquela torre, e quando cruzamos esse factor com tudo aquilo que ela nos mostrou, não podemos deixar de sentir imediatamente que o senhor que nos conduz assim só pode ser um mestre, um esteta, alguém que compõe as cenas como se de um bailado se tratasse. Um bailado arrastado à extrema lentidão, mas (ou por isso mesmo) belíssimo.

O que seguimos depois é uma trama policial — o filme adapta uma obra de Georges Simenon. O homem de Londres era um dos que vinha no navio e que, no início do filme, assassina um outro, atirando-o ao mar, para se apoderar de uma mala. A mala acaba por cair ao mar, juntamente com o corpo do outro, e quem acaba por resgatá-la é o vigilante do cais. Depois acompanhamos a vida deste vigilante, agora com uma mala cheia de dinheiro, no seu dia-a-dia e rotina familiar. O filme segue, muito lentamente e em poucas cenas, a forma como o homem lida com isso — e com a chegada de um investigador inglês que vem investigar o sucedido, procurando o assassino — e, paralelamente, a sua vida familiar. Não se pode dizer que haja grande acção ou mistério. A haver algo, será mais uma tensão, mas mesmo a tensão não é muito construída. Há o acompanhar desta personagem e a forma como esta se vai relacionando com um acontecimento em que se vê envolvido, pelo impulso que teve de recuperar a mala caída ao mar. Tudo tem de ser feito pela interpretação do espectador, porque Béla Tarr não nos dá muitas pistas quanto aos sentimentos e emoções das personagens.

Contribui para esta dificuldade de leitura e estranheza o facto de os diálogos serem dobrados. Béla Tarr assim o quer. O actor principal, o vigilante, é checo, e quem faz de sua mulher é a inglesa Tilda Swinton. Curiosamente, os que fazem de ingleses são húngaros. O filme é, então, dobrado em francês, como língua local do sítio onde decorre a acção, e inglês, do assassino e do investigador. Para alguém tão pouco habituado a filmes dobrados, esta particularidade torna-se um entrave à imersão no filme, mas o efeito de estranhamento acaba por funcionar, mesmo que nunca nos consigamos abstrair da discrepância entre sons e os movimentos dos lábios.

Depois desta primeira experiência, vi o filme anterior a este: Werckmeister Harmonies. Também é dobrado, desta vez em húngaro — os actores principais são alemães. Neste, acompanhamos a personagem de um jovem que faz recados aos habitantes da aldeia, e é através dele que vamos conhecendo as restantes personagens. O que aqui despoleta a acção é a chegada à aldeia de um grupo de pessoas que vivem de um espectáculo ambulante que inclui duas atracções. Uma é uma baleia morta, enorme, transportada num camião, que depois as pessoas podem pagar para ver. Outra é uma personagem misteriosa a que chamam O Príncipe, que faz supostos discursos à população. Nunca assistimos a estes discursos e nunca lhes conhecemos o teor. Vemos muita gente reunida na praça onde estava este espectáculo ambulante e sabemos, através de outras personagens, que o caos começa a deflagrar e que coisas terríveis se preparam para acontecer.

A sequência dos eventos causa algum estranhamento. Não se percebe muito bem de onde surge esse caos, quais são as suas motivações. Percebemos apenas que O Príncipe é responsável. A verdade é que o caos chega mesmo. A multidão da praça junta-se e começa a percorrer a aldeia numa turba de violência e destruição, que culmina numa cena terrivelmente bela e tocante, num lar de idosos.

Embora tudo seja um pouco nebuloso e abstracto, o filme é belíssimo. Retrata, no fundo, a força de uma multidão enfurecida e os resultados catastróficos da violência pela violência, embelezados, aqui ainda mais que em O Homem de Londres, pela mestria dos longos planos-sequência de Béla Tarr e os encantatórios movimentos de câmara. A personagem central, o jovem János Valuska, é uma construção brilhante, quer pelo argumento, quer pela interpretação do alemão Lars Rudolph. A cena inicial, num bar prestes a fechar, lança de imediato o tom poético do filme e levanta a suspeita, que vamos confirmando até ao final, de que János terá problemas mentais. Todo o filme está, aliás, repleto de cenas brilhantes. Desde a forma sublime como Tarr filma as caminhadas nocturnas de János, às cenas realmente tocantes como a cena inicial, a cena em que János vai ver a baleia, a cena da multidão destruidora no lar de idosos e a cena final.

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