Do meu sangue

Ontem à noite estive a rever Sangue do Meu Sangue, de João Canijo. A sensação que trouxe do cinema, quando o vi pela primeira vez no ano passado, manteve-se intacta, se não mesmo reforçada. É um filme brilhante e custa-me perceber porque é que não participou em festivais de cinema de maior visibilidade (e espero que seja só por motivos de calendário).

Quando vi o filme pela primeira vez levava já na bagagem a leitura das várias peças que tinham saído no Ípsilon sobre este, o que fez com que não existissem no filme muitas surpresas para mim. Não foi por isso que o murro no estômago doeu menos. Lembro-me de andar dois, três dias a bater mal por causa do filme, melancólico, cabisbaixo, pensativo. Desta segunda vez, as surpresas foram ainda menos, naturalmente. Os efeitos colaterais também (ou já cá estavam antes do visionamento). No entanto, fiquei a gostar ainda mais deste filme. O único defeito que lhe encontrava atenuou-se. Parecia-me demasiado forçada a coincidência de o professor/médico com quem Cláudia se envolve ser o seu pai, sem que ambos o soubessem. Agora perdoo isso ao argumentista, porque é uma coincidência necessária ao tema central do filme: os extremos perversos a que pode chegar o amor materno. Como isto está retratado de forma irrepreensível, não apenas no caso Márcia (mãe) e Cláudia (filha), mas também no caso Ivete (tia) e João Carlos (sobrinho), o suposto exagero de coincidência fica esquecido, a bem do todo.

O papel dos actores é pedra basilar do sucesso desta obra e é impossível não destacar duas actrizes: Rita Blanco, no papel de Márcia, e Anabela Moreira, no papel de Ivete. A segunda protagoniza uma das cenas mais violentas que vi no cinema. Parte do diálogo dessa cena não estava sequer no guião. Foi improvisado por Nuno Lopes e Anabela Moreira. Sabendo isto de antemão e vendo depois a cena, já muito perto do final, em que Ivete se “sacrifica” para salvar o sobrinho, não podemos sentir outra coisa senão uma admiração e respeito enormes pela actriz que a protagoniza. Quanto a Rita Blanco, só os muito distraídos é que ainda se espantarão com o seu talento. No filme de Canijo, não tem um momento de carga dramática tão pesada como a cena protagonizada por Anabela Moreira, mas o papel de Rita Blanco é exímio do início ao fim do filme. A sua presença em cena quase absorve a dos outros actores.

Para terminar, é impossível não referir o genial trabalho que é feito com o som e a sonoplastia. É verdade que por vezes é frustrante para o espectador ter duas conversas a decorrerem em simultâneo, ambas ao mesmo volume, e não conseguir apanhar mais do que pedaços de cada uma, mas o efeito conseguido é mais do que suficiente para esquecermos esse facto. A verdade é que aquilo acontece. Dois quartos, duas conversas distintas. Num falam mãe e filha, no outro tia e sobrinho. Quem vamos escolher ouvir? Tudo isto é enriquecido por uma invasão tão constante, mas realista, de sons do quotidiano, músicas tocadas na rádio, televisões com jogos de futebol, gritaria das pessoas na rua, que não nos damos conta de que o filme não tem banda-sonora. Praticamente não há silêncio. O filme está cheio de vida. Transborda de vida. E aquilo é a vida real. Podemos nunca ter vivido num bairro como aquele, o bairro Padre Cruz, mas aquilo é a vida. Do mesmo modo que não precisamos de viver o que vivem as personagens de Tolstói ou Dostoievsky para nos identificarmos com os seus sentimentos.

O Público já o disse, mas eu reitero. Isto é grande cinema em qualquer sítio do mundo. Sangue do Meu Sangue é uma obra-prima. E, incrível!, é português. Até à medula.

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