Despejar nomes

Andava a apetecer-me fazer um post aqui, mas como ando com preguiça de escrever coisas que exijam um bocadinho de articulação de ideias, se calhar faço só uma sessão de name-dropping. Tipo, dizer o que é que tenho andado a fazer e isso.

Tenho andado a ouvir música. Desde que fiz um tope de 2011 já descobri mais umas coisas que podiam lá ter entrado e também uma ou outra coisa já de 2012. Acontece-me frequentemente apetecer-me ouvir música mas não saber exactamente o quê. Começo a abrir as pastas e em nada se prende a minha atenção. O pensamento recorrente é mais ou menos assim “sim, isto é muito bom, mas não é bem isto que me apetece ouvir agora.” Depois vem a vontade de ouvir coisas novas, descobrir coisas que me entusiasmam e às vezes se tornam obsessivas.

Este primeiro mês do ano tem sido para mim um mês de obsessões musicais. Começou com o King Creosote, um songwriter escocês de sotaque carregado e voz bonita, apesar do aspecto de bêbado decadente. O disco dele com o Jon Hopkins, um gajo das electrónicas e afins, é lindo e teria um lugar bem lá para cima no meu tope se o tivesse ouvido mais cedo. Chama-se Diamond Mine e é bom do princípio ao fim. A seguir veio a obsessão pelo Woodkid. Não sei descrever o tipo de música que ele faz. É um francês chamado Yoann Lemoine que também é realizador de videoclips (fez, por exemplo, o vídeo da “Born to Die” da Lana Del Rey e o da “Teenage Dream” da Katy Perry). Até agora, só tem um EP chamado Iron, mas vai lançar este ano um disco a sério e aposto uma grade de minis em como vai ser um dos discos do ano. Vejam o vídeo da faixa homónima do EP, que é realizado pelo próprio Woodkid:



A seguir ao Woodkid seguiu-se o James Blake, com a pequena agravante de me ter viciado numa faixa em particular, que ouvi até à exaustão, em repetição constante, e de que ainda não me cansei. Nem sequer é um original dele: é a versão da “A Case of You” da Joni Mitchell. Gosto do disco, mas esta canção, que está no EP Enough Thunder, caiu-me no goto.

E a minha mais recente obsessão é um disco já de 2012: Born to Die, da Lana Del Rey. Já sei que o mundo está mais ou menos dividido entre os que a amam (Menina Limão, conto contigo?) e os que a odeiam. Os que defendem o disco e os que atacam as performances ao vivo. Eu já vi uns vídeos de concertos e percebo que aquilo não funciona muito bem. A voz dela está longe de atingir a elasticidade que parece ter no disco. Mas no disco, não me fodam, aquilo soa muito bem. É um disco pop muito bem produzido, com uns cheirinhos de hip-hop, e a voz da Lana parece perfeita. Não é, mas parece. E isso não é pecado nenhum, acho eu. É ser cinicamente purista atacá-la por causa disso. Eu se calhar não gastarei dinheiro num concerto dela, se a oportunidade surgir, mas não vou deixar de gostar do álbum. Não tem uma faixa má. Vai ser um dos discos do ano se não sofrer daquele problema de os críticos se esquecerem, lá para dezembro, do que ouviram em janeiro.

Também vi vários filmes este mês. Aqueles de que mais gostei foram o Melancholia do Lars von Trier, o Restless do Gus van Sant e o Win Win do Thomas McCarthy. Também gostei do Cave of Forgotten Dreams do Werner Herzog, mas é demasiado documentário televisivo para mim. É interessante enquanto documentário, não é nada de especial enquanto objecto artístico.

O Win Win tem uma qualidade que aprecio muito, cujo expoente máximo encontro no cinema de Wes Anderson: o casamento perfeito entre o drama e a comédia. Esteticamente, este filme do McCarthy não tem muito a ver com o Wes Anderson (que, por sinal, tem um filme novo a estrear este ano que está com muito bom aspecto, Moonrise Kingdom), mas em termos de argumento há alguma semelhança. Não é, de longe, tão exuberante como as histórias do Anderson, mas tem tudo no sítio certo. Ah, também tem uma música inédita dos National que foi outra das minhas obsessões de janeiro. Chama-se “Think You Can Wait” e tem a Sharon van Etten a fazer backvocals.

Quanto ao Melancholia, estive quase para escrever aqui sobre ele. Ia fazer uma comparação com o Solaris, do Andrei Tarkovsky, porque me parece evidente que o filme do von Trier dialoga com o do realizador russo. Se não fosse já suficientemente evidente a relação entre os planetas Solaris e Melancholia, e o efeito que estes provocam nas pessoas, von Trier dá ainda mais pistas, como a presença do quadro “Os Caçadores na Neve” de Pieter Bruegel, que aparece também no filme de Tarkovsky onde tem, na minha opinião, um papel muito importante. Já escrevi sobre isso quando tive um blogue de cinema. Talvez um dia meta aqui esses textos, para que não se percam no limbo do disco rígido.

Sobre o Restless posso dizer que o van Sant me deixa sempre com um desconforto qualquer em relação ao que faz, e este filme não foi excepção. Fico sempre com a sensação de que ele podia fazer mais/melhor. Restless é esteticamente muito bonito, como é aliás regra nos filmes de van Sant. A fotografia é irrepreensível. As interpretações são boas mas eu diria que os actores são demasiado bonitos. Há ali qualquer coisa que não encaixa. O argumento é demasiado fantasioso e aquela beleza etérea das personagens contribui para isso (mais o Henry Hopper — que me faz lembrar o James Blake — do que a Mia Wasikowska). Se calhar isto é intencional, mas torço um bocadinho o nariz.

Para terminar, queria só dizer que fiquei assustado quando descobri que tinha mais de 50 subscritores do blogue no Google Reader. Desculpem lá eu não actualizar a cena mais regularmente, mas vocês percebem. Abri isto hoje e pensei “vou fazer um postzinho pequenito.” Deu nisto. Agora só devo voltar a fazer outro quando tiverem tido tempo de ler este todo. Adeus.

(Vou agora ver o Zidane, a 21st Century Portrait.)

6 comentários

  1. Acho que também vais para o meu Google Reader.
    Quanto ao Restless estou contigo, os filmes dele só me deixam uma palavra na boca: "comichão".

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  2. Fazendo um copy+paste a um comentário que deixei há pouco:

    Os hypes prejudicam mais do que ajudam; compreendo que possam ser inevitáveis (por inúmeros motivos e/ou circunstâncias), mas irritam-me. Como houve um hype à volta dela, já não se lhe pode dar um destaque que vêm logo os ofendidos reclamar da sua (inexistente) mediocridade. Eu já gostava das músicas que conhecia, mas merecem-me tanta atenção quanto tantas outras que adoro de outros músicos -- duvido que fossem assunto para um texto meu. A culpa é desta música. Musicão. ♥

    (Não sabia dessas acusações em relação às actuações ao vivo - tampouco vi alguma. O que sei é das reacções negativas no fb sempre que se fala dela. Anyway, sim, concordo contigo.)

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  3. Ana, faz isso. De outra forma vais cansar-te de vir cá espreitar e nunca encontrar nada de novo.

    Limão, é isso. Também torço o nariz a hypes, mas não pude fazer nada. Ouvi o disco sem expectativas e encantou-me. Tanto que não parei ainda de o ouvir.

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  4. Vinha dizer-te isso mesmo: que desde o meu comentário ainda me viciara mais no álbum.

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  5. Encontrei o blog porque andei a pensar quem me fazia lembrar o Henry Hooper. Faz tanto lembrar o James Blake!!! Ah ah. Acabei por gostar do resto do texto ;)

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  6. Isabel, é bom saber que há quem concorde comigo. Hoje descobri também que o Faulkner era igual ao Dashiell Hammett. E se gostaste deste texto, espero que voltes para ler mais :)

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