Do patriotismo e da descrição

Quem me conhece sabe que não sou dado a patriotismos. Não sei se isso é bom ou mau. Sei porque é que sou assim e se calhar o motivo não é o mais correcto. É que para mim o patriotismo está demasiado associado ao nacionalismo obtuso da direita extremista. Eu tenho consciência de que isto é redutor. Também haverá patriotismo de esquerda, de centro, anarquista, etc. O problema é meu, que vejo perigo na ideia de patriotismo. Por exemplo, choca-me menos ver o Benfica jogar com onze estrangeiros na equipa inicial, do que ver um clube (sim, não é uma selecção nacional) como o Athletic Bilbao a ter agora, em finais de 2011, pela primeira vez, um jogador negro na sua equipa. E ele só lá está porque nasceu no País Basco, condição fundamental para poder jogar no Athletic. Eu até sou a favor da independência de Bascos, Catalães e quem mais queira ser independente. Mas estes patriotismos assustam-me um pouco, confesso.

Contraditoriamente, sinto depois um certo orgulho quando vejo alguns portugueses fazerem coisas que admiro. Regozijo-me por terem nascido no mesmo país que eu. Talvez o faça para me motivar a mim mesmo. Talvez seja uma forma de não desesperar por ter nascido aqui, de me convencer de que é possível, mesmo tendo em conta as condicionantes todas, sair por cima.

Isto tudo para dizer que me dá um certo gozo dizer que o meu filme preferido de 2011 é português. E o meu disco preferido de 2011 é português. Falo de Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, e de Em Busca das Montanhas Azuis, de Fausto Bordalo Dias. Gostava de ter escrito sobre o filme quando o vi, como também gostava de ter escrito sobre The Tree of Life, de Terrence Malick. Para ambos, dou a desculpa de que o farei quando os tiver em DVD. E quanto ao Fausto, a minha desculpa é a mesma de sempre: não sei escrever sobre música. O único pensamento, digno de partilhar, que me ocorreu nas várias audições do disco duplo foi que há momentos em que os versos que Fausto canta me fazem lembrar a poesia de Herberto Helder. Isto, para mim, é um elogio enorme à escrita de Fausto. Não é, contudo, um disco que viva só da escrita, embora esta me pareça o seu ponto mais forte.

Uma das coisas que mais me chamou à atenção foi a extrema eficácia com que Fausto nos leva para as paisagens africanas que descreve. E aqui o mérito é quase exclusivo das palavras, porque a música nos remete mais para a tradição portuguesa (e sim, eu sei que a tradição portuguesa está cheia de influências de África e de todos os sítios por onde andámos), do que para ritmos africanos. Isto produziu na minha cabeça uma associação de ideias um bocado bizarra (mas quem lê este blogue está habituado a que eu relacione coisas sem relação, como o Kafka com o Apichatpong Weerasethakul). Fez-me lembrar de um livro que li há pouco tempo, Writing Fiction, e de um capítulo em particular: o da descrição. A descrição é um dos aspectos da escrita em que sinto mais dificuldade. Por um lado porque me é difícil fazê-lo bem, por outro porque me agrada a ideia de deixar muitos buracos descritivos a serem preenchidos pelo leitor. No entanto, este capítulo deste livro fez-me pensar muito no assunto. Uma das coisas que lá se diz, e não é nenhuma ideia original, é até das mais evidentes sobre a descrição, é que quanto melhor conhecermos as coisas que descrevemos, mais eficaz se torna a descrição. Isto é, funciona melhor dizer que havia naquela praceta um grande carvalho do que dizer que havia uma árvore. Mesmo que o leitor seja um ignorante em botânica tão grande quanto eu, ao ponto de não saber distinguir um carvalho de outra árvore (a não ser um pinheiro, isso acho que sei), o escritor transmite uma outra certeza daquilo que diz e torna-se para nós, leitores, mais fácil acreditar. A verosimilhança ganha força. É por isso que quando Fausto canta “e cobrem o ar gafanhotos / mosquitos e moscos / pavões e patolas / libelinhas / zangões / borboletas / tabões / abelhinhas / gralhas / galinholas // e no chão / abertos os gorgomilhos / há bichas e crocodilos,” apesar de eu reconhecer apenas alguns destes bichos, a nomeação de todos eles contribui decisivamente para a criação de uma imagem exótica na imaginação. E isto funciona também com a nomeação das tribos, dos rios, dos montes e com a utilização de algum vocabulário da época retratada.

A mim assusta-me um bocado a ideia de investigar para escrever. Mesmo que essa investigação se resuma a saber o nome de meia-dúzia de árvores. No entanto, quem me conhece sabe que penso muito na escrita, se calhar demasiado, e sou obcecado por fazer sempre melhor. Ter consciência de que as minhas capacidades descritivas são fracas é meio caminho andado para me obrigar a melhorá-las. Mesmo que decida usar muito pouco esse recurso naquilo que escrevo, não estarei em paz comigo enquanto não me forçar a fazê-lo melhor.

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