Da realização de não-realizações

Não passa um dia sem que pense na escrita. Infelizmente, o pensamento não é acompanhado pelo acto. Não passa um dia sem que eu pense na não-escrita, actividade em que sou exímio. Se a primeira, idealizada, me entusiasma, a segunda, realizada1, desespera-me. Sou muito bom a realizar não-realizações, o que é uma qualidade, no mínimo, deprimente. A prova disso é que eu sou o gajo que fez um blogue com um amigo que tinha como objectivo motivarmo-nos mutuamente para a escrita, e que não passou dos posts “Epígrafe” e “Declaração de intenções”.

Outra coisa que tenho feito sempre que possível, além de não-escrever, é ler. Descobri David Foster Wallace, o que, pensarão muitos, é mais ou menos como se eu, se fosse mecânico automóvel, tivesse descoberto agora a roda. Felizmente, isso não me afecta. Pretendo apenas desfrutar da leitura de Foster Wallace como desfrutaria da roda naquele hipotético cenário de há pouco. Não li ainda quase nada do malogrado escritor norte-americano2, nem tenho sequer ainda um único livro dele, mas já percebi que quero ler tudo e ter todos os livros. Li dois contos e uma reportagem e meia. O texto que vai a meio é o melhor até agora. Chama-se “Shipping Out: On the (nearly lethal) comforts of a luxury cruise” e é sobre os confortos (quase letais) de um cruzeiro de luxo. Resumidamente, o gajo pagou do próprio bolso uma semana num cruzeiro de luxo às Caraíbas para escrever sobre a experiência. O resultado é hilariante. Essa é a maior qualidade de David Foster Wallace, ser hilariante quando escreve de forma séria e brilhante e inteligente. A hilaridade, aliás, é conseguida não à margem da escrita série e inteligente, mas precisamente através dela. É incrível a forma como Foster Wallace intercala observações sobre a roupa e o bronze dos turistas no cruzeiro com explicações de meteorologia e qualquer outro assunto sobre o qual o comum dos mortais não sabe mais do que o básico, nem tem paciência de saber3. Os textos de não-ficção de Foster Wallace lêem-se com o mesmo entusiasmo com que se lê ficção da melhor qualidade. E por enquanto, apesar do fraco corpus a ter em conta, a não-ficção entusiasmou-me mais do que a ficção. Ainda assim, os dois contos que li eram excelentes. Um, terrivelmente macabro e, por isso, delicioso, tinha apenas duas páginas e relatava o episódio de um pai a tentar salvar o filho bebé a quem tinha caído em cima uma panela de água a ferver. O outro, mais longo, sobre um casal de adolescentes católicos que discutem, ou melhor não-discutem4, sobre o hipotético aborto que a rapariga iria fazer. Não são, principalmente este último, menos do que geniais. É verdade que aqui não há humor, mas a escrita de David Foster Wallace é daquelas que nos faz parar por segundos só para admirar a construção de uma frase.

Posto isto, e com pouco mais de uma dezena de páginas lidas da autoria deste senhor, já se tornou óbvio que vou ter de ler tudo a que conseguir deitar mão. E, como nestas coisas sou impaciente, a tarefa terá de começar em breve. Isto é, assumindo que a tarefa só começa oficialmente quando estiver a ler livros a sério, porque, em abono da verdade5, já começou com estes textos que fui apanhando por essa Internet fora.

Além de David Foster Wallace, também tenho lido Imajica, de Clive Barker, um calhamaço de fantasia épica homoerótica misturada com um travo de ficção científica, e Fidel e Che, uma espécie de dupla biografia de, imaginem só, Fidel Castro e Che Guevara, duas figuras curiosas que estou a gostar de descobrir. Para não vos maçar, e porque não me apetece escrever mais (e tenho de ir para a cama continuar a ler o “Shipping Out”), não vou falar sobre estes e outros livros. Não por agora, pelo menos.

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1 A realização da não-escrita é (apesar de o conceito em si ser intrincado) das coisas mais fáceis com que já ocupei o meu tempo. É quase como ler. Eu idealizo aquilo que escreveria (ou, como às vezes penso, escreverei) já enquanto leitor e não enquanto potencial escritor. Isto é, não estou a pensar no como-escrever mas no ler. Leio, mentalmente e simultaneamente, aquilo que gostava de escrever e não escrevo. E tal como me acontece com os livros que realmente leio, também com os que me limito a imaginar se dá o fenómeno de concluir: foda-se, quem me dera ser capaz de escrever assim. Sim, eu invejo o meu eu-escritor-imaginário tanto como invejo os escritores de que gosto. Esta capacidade de ler o que não escrevo parece-me das coisas mais banais de sempre, mas vai daí não é. De outro modo, como explicar aquele argumento de muitos escritores (acho que quase todos maus) de que escrevem o que gostariam de ler? Se todos tivessem esta capacidade maravilhosa e tenebrosa que eu tenho, não precisavam de escrever.

2 Se pensaram que esta nota de rodapé visava explicar que a utilização da ridícula expressão malogrado escritor norte-americano (como, aliás, qualquer outra começada por malogrado/a) era irónica, parabéns, é exactamente para isso que serve esta nota de rodapé. Para quem não sabe, posso também poupar-vos a pesquisa na Wikipedia dizendo-vos que o escritor em causa se suicidou em Setembro de 2008, com 46 anos e uma obra elogiada quase unanimemente pela crítica, leitores e outros escritores. Jonathan Franzen, aquele que é o escritor do momento e que eu nunca li, era amigo de Foster Wallace e escreveu um ensaio sobre o seu suicídio que esteve disponível em exclusivo na página de Facebook da New Yorker e que agora já não está mas que ainda se encontra na Internet, nomeadamente clicando aqui. Eu ainda não li o ensaio, sigam o link por vossa conta e risco.

3 É provável que a parte da meteorologia não apareça neste texto, mas aparece num outro que li sobre a sua carreira enquanto tenista e a influência das condições meteorológicas da sua cidade no seu estilo de jogo. Ou seja, o que interessa é que o tipo conseguia escrever sobre tudo.

4 Não-discutem porque o conto é quase todo feito de não-diálogo. Estão os dois juntos, ao pé de um lago, a olhar para o lago, ou para a relva, ou para o céu, e a pensar em tudo aquilo e em tudo o que não estão a dizer e deviam estar. E o modo como o autor aguenta um conto em que não acontece nada, mas está a acontecer muita coisa, é brilhante.

5 Sim, esta expressão também está aqui devido à minha afinidade pelo lugar-comum kitsch. Ainda assim, esta nota de rodapé tem outra funcionalidade: a de explicar porque é que este texto tem notas de rodapé. Quem já leu David Foster Wallace já percebeu, quem não leu, acabou de perceber (espero eu). É uma espécie de homenagem ao David, que usava muito, e brilhantemente, este recurso nos seus textos de não-ficção (na ficção que li até agora, não usa, mas não garanto que seja sempre assim). O facto de as minhas notas de rodapé estarem assim todas bem formatadas é, provavelmente, mais um dos sintomas da minha incapacidade para a escrita. Ao passo que as pessoas que realmente escrevem se limitam a escrever, e não se importam de ter blogues feios (como o Rogério Casanova) ou com notas de rodapé sem a formatação devida, eu preocupo-me com estas merdas, muitas vezes mais do que com a escrita em si. E não, isto não acontece só no blogue: acontece com o papel, as canetas, os lápis, as lapiseiras, o software, o tipo de letra, etc.

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