A família Glass

Talvez não vos apeteça um daqueles textos em vários parágrafos, em que não faço mais do que contar-vos o que ando a ler e a ver e o que é que de relevante se passa por aqui. O problema é que por aqui, neste preciso momento, não se passa nada, pelo que a mim me apetece um desses textos em vários parágrafos, cada um mais interessante que o anterior.

Como já terão reparado, estou a ler Franny and Zooey, do J. D. Salinger. Isto significa que já acabei o Metamorphosis and Other Stories do Kafka (na verdade, podia não significar, porque quem me conhece minimamente sabe que, desde há uns tempos para cá, costumo ler vários livros ao mesmo tempo). Sobre o Kafka há a dizer que é genial. Dos contos presentes neste volume, os melhores são “The Great Wall of China” e “The Burrow”. Ambos são longos e em ambos não acontece praticamente nada. E o Kafka aguenta-os ali, como a caminhar sobre um muro em que os pés não cabem um ao lado do outro, e nunca os deixa cair. Mantém o leitor agarrado àquela prosa sem acção, sem esperança de acção, mas agarrado. É como se a neurose das personagens se apoderasse de nós. Nada podemos fazer senão esgotá-la em pensamentos cíclicos e infrutíferos. Isto pode parecer assustador, mas como diz o meu amigo Nuno, o Kafka é divertido e tem de se ler com um sorriso. Sendo verdade, não posso deixar de confessar que, em mim, o sorriso deu lugar a qualquer coisa como isto :O - um espanto enorme, tão grande quanto o talento de Kafka.

Concluída esta leitura, pensei retomar o interrompido Estrella Distante, de Roberto Bolaño. Aliás, pensei e fiz. Isto à noite, antes de dormir. Na manhã seguinte, quando ia sair para o trabalho, pego no dito livro e tento colocá-lo no bolso do casaco (o mesmo onde tantas vezes viajara o livrinho de Kafka), apercebendo-me então que as dimensões daquela edição de bolso da Anagrama excediam as dimensões da minha algibeira. Pedi perdão ao Bolaño e peguei então num pequeníssimo exemplar de Franny and Zooey, edição Little, Brown, para o qual a minha atenção andava a ser empurrada, involuntariamente, pela Joana.

O Salinger, ao contrário do Kafka, era para mim uma aposta segura: The Catcher in the Rye é um dos meus livros preferidos (que também já tinha abandonado uma vez, mas por ter começado a ler a tradução portuguesa; quando peguei no texto original, despachei-o em constante deleite). Sendo uma aposta segura, há que dar mérito, contudo, ao senhor Salinger porque me surpreendeu. Franny and Zooey tem pouco que ver com The Catcher in the Rye. Se Holden Caulfield era uma personagem fascinante, a família Glass, da qual fazem parte Franny e Zooey consegue superar o jovem Holden largamente.

J. D. Salinger era um génio. A família Glass é, neste momento, a minha obsessão. Tanto assim é que, ao livro do Faulkner que já tinha dito que ia comprar, vou acrescentar os dois que me faltam do Salinger, e onde há mais histórias da família Glass: Nine Stories (que no Reino Unido tem como título For Esmé - With Love and Squalor) e Raise High the Roof Beam, Carpenters and Seymour: An Introduction.

A história desta família só pode ser apaixonante. Já o é, e ainda agora entrei nela. Que se fodam os Cem Anos de Solidão. Por mim, passava o resto da vida a juntar pedacinhos daqui, pedacinhos dali, de todas as histórias do Salinger até perceber o que é que se passa com esta família de génios precoces e atormentados.

Além destes livros que referi, há mais histórias, não publicadas em livro, com membros da família Glass. A mais famosa é Hapworth 16, 1924, publicada na revista The New Yorker (como grande parte das histórias de Salinger), e que nunca viu edição em livro. Graças à internet, felizmente, tudo se consegue. A quem interessar, aqui fica o PDF com esta história. É uma carta escrita por Seymour Glass, o mais velho dos irmãos Glass, que se suicidou.

Agora só queria ter tempo para ler isto tudo, mas vai ser cada vez mais difícil. Aproveito então para vos contar que, ao que tudo indica, vou começar a escrever para milhares de pessoas. Sim, digo-o assim porque isso é o que mais me assusta. Se tudo correr bem, brevemente poderão ler textos meus no Ípsilon, o suplemento de sexta-feira do jornal Público. E como se isto não fosse suficientemente assustador e potenciador de suores frios, também vou ter de apresentar um livro, publicamente, em Novembro, na livraria Pó dos Livros. Enfim, depois conto o resto. Hoje só me apetece Salinger.

9 comentários

  1. creio que estás equivocado. o livro nine stories tem nove histórias sendo que uma delas é a for esmé - with love and squalor. penso que a edição que existe com este nome é uma edição só com esse conto. mas isto sou eu que acho.

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  2. foi a wikipedia que me disse que o livro com esse título tem também as 9 histórias, só que os ingleses quiseram chamar-lhe assim. não sei se é verdade.

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  3. mas aqui diz que são só duas: http://www.bookdepository.co.uk/book/9780241950456/For-Esme---with-Love-and-Squalor , por exemplo.

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  4. pois é :/ então não sei. mas seria estranho a penguin não ter as nine stories então. bom, seja como for, eu encomendei as nine stories, da mesma editora dos outros dois que já tenho :)

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  5. quais outros dois? eu tenho o franny igual ao que te ofereci, e o nine stories da mesma editora que é feio para caraças.

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  6. o franny e o catcher in the rye :) e sim, o nine stories tem uma capa horrível, mas é igual à da primeira edição.

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  7. não sou eu que tenho o catcher? espero que isto signifique que já compraste outro para ti.

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  8. sim, és tu que o tens. e não, não comprei outro para mim.

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