Arrastar com prazer

Estas coisas valem o que valem, mas não pude deixar de ficar contente ao ver esta lista dos 100 maiores escritores de todos os tempos, onde encontrei o meu companheiro dos últimos dias, Franz Kafka, no segundo lugar, atrás apenas de William Faulkner (que já tinha planeado, antes de ver esta lista, começar a ler muito em breve - aliás, já tinha decidido que, quando receber o ordenado, o primeiro livro a comprar será o volume das suas Collected Stories: novecentas páginas para me entreter uns mesinhos; e depois ainda há as Uncollected Stories: mais setecentas e tal).

(Os links para o Book Depository ficam aí para o caso de alguém mos querer oferecer. No caso de ser o primeiro, avisem-me para eu não o comprar. Se for o segundo, comprem à confiança que eu não o vou comprar tão cedo.)

Mas este post era para falar de Kafka. Estou a ler o terceiro conto (ou novela, depende do puritanismo de cada um) do livro de que já aqui falei (Metamorphosis and Other Stories) e continuo em constante deslumbramento. Aliás, dos três, não consigo escolher um preferido. Os três são fascinantes à sua maneira. São três textos escritos na primeira pessoa, misto de diário com monólogo com autobiografia, que se arrastam (e aqui é fundamental que tirem a esta palavra toda a carga negativa que lhe costuma ser associada - porque, sim, há coisas que se podem arrastar muito facilmente e com prazer) num tom encantatório, que às vezes é lúcido e outras vezes senil. Todos eles causam estranheza. O primeiro - “The Great Wall of China” - é escrito por um homem que trabalha na construção da Grande Muralha da China e disserta sobre a construção e sobre o país. O segundo - “Investigations of a Dog” - é escrito por um cão que investiga, sem sucesso, os comportamentos bizarros que observou em outros cães. O terceiro (que ainda não terminei) - “The Burrow” - é escrito por um animal que vive numa toca e que escreve sobre a sua toca: a arquitectura das salas, dos túneis, a segurança que lhe oferece, os medos que lhe provoca. Tudo coisas fascinantes, não? Ok, provavelmente eu nunca os teria lido se me fizessem só esta breve descrição de cada um. Mas que o senhor Kafka era um génio, isso era.

O que talvez não saibam é que, há uns anos, tentei ler O Processo e desisti a meio, de tão mau que achei. Não sei se a tradução era má, não me recordo, ou se era eu que não estava preparado ou se vou achar o mesmo numa próxima tentativa. Depois disso li a Metamorfose e gostei, sem achar genial. Só com estes três contos é que me convenceu. Não sei se depois deste livro (faltam-me ler dois contos) me atiro a um dos romances de imediato. Provavelmente não. Mas não demorará muito.

(Espero que tenhas gostado deste post, João Sobral, só o escrevi por achar que ias ler.)

8 comentários

  1. seria simpático, mas já fico feliz por saber que te dás ao trabalho de ler o que escrevo.

    a partir de agora vou incluir referências ao teu nome a meio dos textos, para testar se os lês mesmo :)

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  2. oh, agora que me avisaste, essa estratégia já não vai ser tão eficaz.
    quanto à oferenda, sinto muito...

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  3. Acho impressionante a quantidade de atenção que consegues dar a um autor sem lhe teres lido os grandes livros. Grandes em tamanho sim, mas também os maiores em profundidade, complexidade, estranheza... Isto é antigo, por isso calculo que já tenhas ganho as ganas de enfrentar O Processo. Entendo o dilema, também já lhe peguei e desisti dele. Se esse não te convenceu até agora, pega nO Castelo, ou então no América, que tem uma estrutura mais familiar. Mas parece-me essencial para quem vagueia no mundo literário confrontar-se com aquele que mais desafia o convencional.

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  4. Olá Anónimo.
    Ficarias surpreendido ao saber a quantidade de atenção que consigo dar a coisas muito menos espectaculares.
    Lamento profundamente desiludir-te: ainda não voltei a pegar no Kafka. Tenho O Processo, O Castelo e o Amerika, todos em edição inglesa. Só que agora estão numas caixas na garagem e são um bocado inacessíveis. Quando mudar de casa trato disso. Desculpa.

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  5. Sim, eu sei que sim. Não é por acaso que por aqui me passeio. Gosto da mescla que fazes de pequenos e variados apontamentos. Mas se falas de Kafka, tens de o conhecer. Deveria ser quase como a velha cadeia da causa e do seu efeito. Incentivo-te a isso, pelo menos.
    E não era minha intenção ser pretensiosa; peço desculpa se assim me fiz entender. É que sou verdadeiramente entusiasta por este senhor.

    A tua garagem é absolutamente merecedora de uma visita.

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  6. Não, não te entendi como pretensiosa. Se assim tivesse acontecido, a minha resposta teria sido seca e irónica em vez de parva e proto-divertida.

    Permite-me discordar contigo num ponto: não tenho de conhecer Kafka para falar dele, como não tenho de conhecer Peixoto para dizer que é uma merda (ui... foi muito gratuito isto? não resisti). Acho que é legítimo falar conhecendo uma parcela. Ninguém é obrigado a conhecer tudo e se não pudéssemos falar do que não conhecemos, acho que não podíamos falar de nada, porque ia sempre aparecer alguém que ia dizer que eu não podia falar de Kafka sem ter lido os diários. E depois de os ler, vinha alguém dizer que também tinha de ler as biografias todas que existem, e os estudos, e os ensaios, e os textos desaparecidos, e isto tornava-se um bocado kafkiano.

    Posto isto, estás convidada a visitar a minha garagem.

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  7. Pode ser... mas ao mesmo tempo nem tanto. Escolheste dois dos meus contos favoritos, dentro desse pequeno livro (deverias ainda espreitar O Abutre, nem que seja pela edição fetichista que dá cunho À Biblioteca de Babel - a qual muito aprecio, até porque nem todas as traduções portuguesas deverão ser assim tão más! esperança). Mas as parcelas que te faltam (principalmente o duo dO Processo e O Castelo) serão as mais importantes, e quando as leres irás reconhecer isso.

    "Posto isto", não me estava a querer convidar a conhecer a tua garagem, apenas a motivar-te a fazeres-lo tu mesmo! Não sou senhora de tal ousadia; já basta ter invadido o teu espaço virtual.

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