Aprender dos mestres

Nunca tinha lido nada de Raymond Carver, mas já o tinha debaixo de olho (como o Benfica tinha debaixo de olho aqueles jogadores que são contratados quando não conseguem contratar os que realmente queriam). A verdade é que, como isto de comprar livros é mais fácil do que comprar o passe de jogadores de futebol, Carver foi ficando para segundo plano, até Cathedral me ser generosamente oferecido pelo meu grande amigo Emanuel.

Comecei por ler o conto mais pequeno do livro, “Chef’s House”, para ter uma impressão rápida. Fiquei, de imediato, estarrecido. Entretanto já li mais quatro ou cinco contos. Estou a meio do livro. E Carver já me mostrou que não o devia ter relegado para segundo plano.

O conto que li fez-me lembrar um dos poucos que li de Hemingway, “Up in Michigan”. Tal como no de Carver, também no de Hemingway se conta um pequeno período da história de um casal. Em ambos, o período contado não tem nada de extraordinário, não há nenhum acontecimento marcante. No entanto, com estilos diferentes, os dois conseguem contar muito mais do que aquele breve período de tempo. E mais ainda do que aquilo que contam, conseguem fazer com que o leitor veja aquelas pessoas para lá do que está nas páginas.

Carver foi daquelas segundas escolhas que depois se revelam tão boas que percebemos que deviam ter sido as primeiras (como de vez em quando também acontece com jogadores do Benfica). E entrou para a categoria dos mestres. Os mestres são aqueles escritores que me parece que ensinam a escrever só por serem lidos. Ensinam mais do que cursos de escrita criativa e livros teóricos. Também dão mais luta, porque são tão bem feitos que as costuras não estão à vista (isto é uma metáfora roubada; provavelmente ao Lobo Antunes, que não devia ser mestre para ninguém). O leitor tem de se esforçar para perceber porque é que aquilo é tão bem feito, tão perfeito, quando parece à primeira vista tão banal.

Os mestres não são, necessariamente, os meus autores preferidos. Quando me perguntam por livros preferidos, respondo quase sempre Pedro Páramo, de Rulfo, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Do primeiro podem tirar-se algumas lições, do segundo não tento sequer. É tão diferente, tão radical, tão distante daquilo que quero fazer, que não posso encará-lo dessa forma. Claro que há sempre alguma coisa que se aprende, mas quando falo de um mestre, falo de alguém que dá lições a cada parágrafo.

Os mestres são, por isso, aqueles que me parece que mais lições dão com a escrita. Até agora, tenho pouquíssimos. Posso enunciar o Carver, o Hemingway, o Cormac McCarthy, o Tolstoi e a Ana Teresa Pereira. Aqueles que fazem muito com poucas palavras (do Tolstoi só li novelas pequenas, pelo que se enquadra nisto). Ou que não enchem a escrita de truques e floreados e divagações. Claro que haverá por aí muitos autores que engrossarão esta lista, mas para já são estes.

O problema dos mestres é que são tão bons que corremos o risco de, mesmo sem darmos por isso, querermos fazer como eles. Esse sempre foi um dos meus defeitos e uma das características contra as quais tenho de batalhar. Acredito sem reservas que é a ler que mais aprendo a escrever, mas sei também que é preciso escrever contra as influências.

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