O caderno perfeito

Creio não incorrer em grande falha se disser que toda a gente que gosta de escrever, ou que tem na escrita o seu ofício, gosta de cadernos. Eu não sou excepção. Não se trata apenas de gostar de cadernos indiscriminadamente, embora a ideia de caderno, por si, possa ser apelativa. Mas há, claro, cadernos maus, cadernos feios, cadernos de que não se gosta. Neste campo, como em todos, há gostos para tudo.

Há os fetichistas que usam sempre o mesmo modelo, como aqueles cadernos de argolas brancas e capa azul, ou os cadernos diários da primária, de capa amarela, ou aqueles de capa preta e lombada agrafada; isto para dar só exemplos de cadernos que acho particularmente feios. Também há gente, e não pouca, que brada o seu amor pelas esferográficas bic como o instrumento divino da escrita; para dar mais um exemplo de algo que odeio.

O tédio da fuga

Mais do que um filme entediante, Profissão: Repórter (1975), de Michelangelo Antonioni, é um filme sobre o tédio. Num primeiro momento, há o cansaço, que conduz à acção que desencadeia o enredo, mas rapidamente a personagem de Jack Nicholson regressa ao cansaço, ao tédio letárgico capaz apenas de um movimento: fugir.

Nicholson começa por ser David Locke, um repórter britânico em África que tenta em vão encontrar um grupo de rebeldes armados. Quando descobre o inglês, que conhecera na viagem, morto no quarto de hotel, David Locke decide trocar de identidade com este, e assim passa a ser Robertson. O que Locke não sabe nesse momento, mas virá a descobrir depois, é que Robertson era um traficante de armas, fornecedor dos tais rebeldes.

David Simon: um dos maiores escritores do século XXI

Quando pensamos em grandes escritores, o conceito parece indissociável de um outro, o de livro, porque é nos livros que temos contacto directo com a escrita. Desde que surgiu o cinema, há pouco mais de um século, e depois a televisão, vimo-nos confrontados com uma outra realidade, de homens e mulheres cuja escrita nos chega em forma de imagens.

No teatro o choque nunca foi tão marcante porque a maioria das peças encenadas existiam em formato texto, podiam ser lidas prévia ou posteriormente. Embora também já haja edições de guiões de cinema, ainda que muito residuais, a verdade é que a escrita para cinema e televisão é uma escrita sem leitores: estes são substituídos pelos espectadores.

O factor decisivo para ganhar o Nobel da Literatura

Ontem, como faço desde há uns anos, assisti em directo ao anúncio do Prémio Nobel da Literatura, que foi atribuído à bielorussa Svetlana Aleksievitch, que já tinha um livro publicado em Portugal: O Fim do Homem Soviético, na Porto Editora. Mais se seguirão, certamente.

Fiquei profundamente desiludido. Não pela vencedora, de que nunca li nada, mas pelo anúncio. Quando a porta se abriu e saiu uma senhora, apeteceu-me pedir o meu dinheiro de volta. Desde que vejo os anúncios do Nobel que o prémio é anunciado por Peter Englund, que era o secretário permanente da Academia Sueca. Parece que este ano, em Maio, foi sucedido no cargo por Sara Danius, a tal senhora que anunciou o nome de Svetlana Aleksievitch.

Como segurar numa caneta

Recentemente, descobri que uma boa forma de terapia é escrever à mão. Descobri-o a escrever uma carta e confirmei-o a escrever num caderno, para mim, sem qualquer intuito de mostrar aquilo a alguém. Talvez seja a junção de uma actividade intelectual com uma física, porque escrever à mão tem um lado físico que não é tão marcado quando escrevemos num computador.

Sim, num computador as mãos também se mexem (até se mexem as duas, ao contrário do que acontece na escrita manual), mas o movimento é mais desligado. Nós carregamos em botões que fazem aparecer caracteres, que se transformam em palavras. Cada bater de tecla dá um carácter. Enquanto na escrita manual, cada letra e cada símbolo exige um desenho, um percurso da caneta pelo papel.